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    Um exclusivo de...
    Arthur Pondal Doylhe
    Domingo, 30 de Janeiro de 2011

    Castelao, por Pacheco, em El Pueblo Gallego

    Meia noite encendi a lâmpada, a minha sombra projetou-se na parede com o ar suspeito de quem sabe mais que um próprio e desconfia de ser perguntada. Comecei pitagórico, platonista, gnoticista, cabalístico, hermético e à inversa a leitura das páginas que deixara - no ronsel do mestre Kardec - o Doutor Alveiros, e li e reli, sob o signo ofiolátrico e dentro do circo da serpe alquímica, até que o sabor a sal e o cheiro difuso a outonia anunciaram no cintilar da luz e o acompanhamento de rumorosos sinos as presenças convocadas pela ciência hermética.

    Não é doado não, seguir os passos dos antigos, para além de renunciar ao banho semanal e reter os mais dos fluidos, jejuar 48 ou mais horas e algumas disciplinas... um deve ter conhecimentos de magnetismo, hipnose e autohipnose (médicas), pois não chega com aumentar a dose necessária de café licor ou empregar outros espiritosos de maior perigo (rebaixados estes a fim de assegurar a volta do mundo das sombras) para lograr a distância exata na projeção do corpo e a vontade, entanto deixamos acontecer o milagre musical e entre as pálpebras baixando vemos a sombra se decolar do corpo.

    Lograda a projeção um percorre em vista estelar os caminhos fadados intermundo e procura os que já foram; que, como é sabido, em sendo galegos agrupam-se nas paróquias do além segundo o seu natio. Nesta visita à terra da brétema, não isenta de perigo, consignado repórter pela equipa de Seioque, viajei caminhos no tempo e no espaço na procura da Ponte Vedra mística, gnóstica, e retranqueira, ensimismada em tertúlias, pois intuia que o nosso homem, sendo fim de semana seria mais possível de topar no recolo do café beira do Leres que no Rianjo natal.

    Da mão da sombra de Vítor Said, Jesus Muruais e Javier Pintos Fonseca, paramos tal e como me indicaram no Castromil astral, antes justo do desvio a Castroforte do Baralha e fomos-nos achegando à porta de cristal esmerilado de uma taberna em que se escutitava o violino que com arco lunático atacava crepuscular Manolo Quiroga, e eis que num recanto estava sentado o objeto da nossa peripécia.

    Lá mesmo, rascunhando a lápis na mesa de mármore e algo sentimental, com o ar de quem tem um algo nos olhos: Castelão, o nosso Castelão!! ou melhor dito e para ser verossímeis e ainda verdadeiros: não a múmia que aguardávamos ver, senão a fantasma encantadora e presença carinhosa de Castelão.

    Afonso, Daniel para os amigos, Castelão para a gente, não é um vampiro, para isso e como ele diz teria de ter sido cacique em vida, é um fantasma extraordinariamente simpático; alto e fraco, move os braços e as pernas, longuíssimos todo o tempo e para toda parte, como essas árvores humanizadas com que Arturo Rackman nos glossa os contos de bruxos. Ainda tem o rosto barbeado a labrega e nele como faros as rodas vítreas dos lentes com que esculca tudo.

    Seco, de preto e laço, camisa branca, com ar de cuáquero ou de sóbrio protestante do que um aguarda uma longa prédica ou uma venda de bíblias, mas quando, após um pouco de dúvida, se solta a sua língua abrolham as gargalhadas entre anedotas e retranqueiras profundidades sobre os caciques, os senhores das vilas, os tempos de antes e as falcatruadas do Centralismo.

    A sua voz agasalha e abre mundos de pintura e fantasia, com uma grata cadência de cantiga, antiga, Divinas palavras de velho latim campesino galaico, que falam da Galiza e as suas gentes com doce tristura enquanto as mãos ágeis passam a pequenos papéis, a cadernetas que emergem dos petos imensos, rascunhos de pensamentos.

    Sem olhar para os seus desenhos já se entende que este homem está enfermo de um amor incurável e melancólica ironia galaica.

    - Eu nasci em Rianjo, sabe, uma pequena vila marinheira entre a Crunha e Pontevedra, num rádio pequeno nasceram arredor Rosalia, Valle-Inclán, Julio Camba, o poeta Cabanilhas e até a bela Otero, e ainda tenho orgulho de não ser paisano de nenhum dos ministros galegos.

    Sorri acenando a amarga profundidade destas palavras... e engade como quem dá um traço a caricatura:

    - Difícil que algum dos ministros ou políticos galegos seja nunca paisano meu.

    Não sabemos se sorrir também ante este sorrir tão fundamente apenado que de tão desmaiado até fere.

    Castelão frivoliza, o grande renovador da pintura galega, fala de Goya, do seu Album Nós, de ocres e pretos, dos cegos que pinta, da miséria da Galiza, dos seus eivados e loucos, dos impostos e das matanças policiais de Osseira, Nebra e Sofão, e remacha a cena lembrando anedotas dos comentários da Gente bem ante a sua arte...

    - Quando Galiza se espreguiçava dum longo sono. Com aquele meio cento de desenhos tentei desacougar a todos os licenciados da Universidade (amas de cria do caciquismo), a todos os homens que viviam do favor oficial... As intenções eran nobres e o pessimismo aparente. Certo que a tristura destes desenhos queima como a raxeira do sol que pasa por uma lupa; mais eu não queria cantar a ledice das nossas festas, nem a fartura dos casamentos, senão as tremendas angúrias do decotio labrego e marinheiro. Alguns espíritos sensiveis que choram com a melancolia dos tangos e dos fados, atoparam desmedida esta dor das minhas estampas; outros espíritos inertes olharam pouco patriotismo no afã de ser verdadeiro. Com tudo, eu continuo cuidando que o pessimismo pode ser libertador quando desperta carragens e cobiças duma vida mais limpa. Talvez hoje ataca-se as nossas mágoas cum humor menos acedo; mais ninguém pode negar-me que as velhas injustiças andam en pé: velai porque me arrisco a publicar esta obra. Ela foi amostrada em todas as cidades e vilas da Galiza e servem de pretexto para "conferências" que influiriam no atual rexurdimento da galeguidade. E com as chatas que tem eu guardo-lhe lei e quero expô-la de novo ao juizo de todos.

    Panteismo, idealismo e sarcasmo. Um humorista que não faz rir senão pensar e ainda pensar entanto se nos fecham os punhos pensando em agir.

    Foi médico de vila, Castelão, primeiro estudou medicina entanto aprendia a desenhar e a tocar a guitarra, mas depois a vista começou a falhar-lhe e pensou em se dedicar a pintar almas com a alma, mas para viver um amigo disse-lhe que umas vagas no Corpo de funcionários públicos de estatística davam para viver.

    E Castelão, o homem que mais trunfos deu no seu tempo a pintura galega, o popular Castelão a quem muitos queriam ver de comparsa decorativa nalguma das fações dos partidos turnantes, deixou o bisturi, as promessas e as paletas e foi-se a Madrid de opositor. E com 6.000 reais ao ano - que bons que são - e sabendo tudo quanto há que saber de estatísticas e matemáticas, volveu a pintar e a fazer caricatura nos jornais.

    E quais os temas da arte de Castelão?

    - Galiza, apenas.
    E ensina as mãos Castelão num aceno desmaiado.

    - Nenhuma nação como Galiza tão esquecida... ou tão desprezada ou tão escarnecida. A palavra "Gallego" ainda é insulto nos lábios de muitas gentes idiotas.

    A grande Rosalia escreveu estas palavras:

    ¡Probe Galiza, não deves
    chamar-te nunca espanhola
    que españa de ti s'olvida,
    quando eres tão formosa.

    e isto é por desconhecimento. Galiza é totalmente desconhecida. E também não há interesse em a conhecer.

    Os que acreditam conhecê-la é por algum político. E os políticos são um produto típico de Galiza? Rotundamente não.


    Essa cousa ambígua e eloquente que é um político galego
    é um produto de todas as regiões. Ainda as regiões mais novas e escuras enviam a Madrid algum político funesto. Ainda que se nos poderá dizer que Galiza foi quem mais políticos funestos exportou a Madrid, por pensar nuns quantos.

    Em Galiza como em todas as partes está bastante estendido este germe, que se ativa ao contato de Madrid, ou melhor dito, do centralismo. Então é quando aparece a enfermidade: o Político.

    Se esse homem - quase sempre um advogadinho - não entrara em contato com a política centralista, seria uma boa pessoa e tudo o mais, tudo o mais, provocaria um preito ao seu vizinho ou pronunciaria uma defensa enfática na Audiência provincial.

    A esta classe de homens não os envia Galiza, vão eles atraídos pela sugestão da política. Podemos afirmar que esta é a morralha espiritual da Galiza.

    E o doloroso é esta gente acreditar que vêm sendo galegos. Eles próprios quando chegam a algo, já se avergonham de sê-lo. Passado algum tempo já esquecem que são. E se têm uma finca, vêm a Galiza tomar os ares, como podiam ir a Pozuelo de veraneantes, mas sem nenhuma emoção filial.

    Estes senhores podiam ser perfeitamente de Cuenca. São de qualquer parte, que é nenhuma. Vão ao seu, e avonda. Tudo o mais são do distrito por onde saem deputados, e nem isso.


    E Castelão apaixona-se ao falar...

    Não, há outra Galiza, uma viva, fecunda, grande... uma Galiza futura. Uma Galiza que ressurge de ela mesma. Uma Galiza que sabe que está tão perto de New York e Londres como de Madrid. Vigo está justo frente a New York.

    Há uma Galiza de novas vozes... e quantos artistas passivos e escritores e jornalistas há nela que podiam ajudar nesta redenção!!

    Castelão, popular e idolatrado, o reverenciado autor dessas "Cousas da vida" que em ditos ou como retalhos dos jornais pendem nas paredes de lojas, tabernas, boliches, das cabinas dos mercantes, locomotoras e até como soubemos por um amigo num cêntrico bar de Chicago.

    - Posso assegurar - diz o grande humorista lembrando quando saiu deputado pela República - que falei desde todos os quiosques e palcos da música da província e com o estatuto da Galiza inteira. Por todas as vilas, aldeas, desde todas as praças falando da Galiza autónoma dentro da República Federal Hespanhola...

    E éramos incansáveis e os paisanos aplaudiam a ravear, e sabíamos que se não se lhes fixava a letra, quando menos iam quedando com a música... Daquela aventura, pura contra o velho e o novo cacquismo, ganhei a ata de deputado a Cortes e comigo Ramón Otero, Picalho, Vilar Ponte, e toda aquela gente esperançada.

    Anima-se Castelão falando de gentes e de daqueles tempos republicanos, não sabemos como perguntar-lhe pela barbárie genocida... Falamos do momento trágico do 19 de Julho.

    - Estava em Madrid, com Picallo e coma minha esposa, viéramos entregar o estatuto e o presidente das cortes nos recebera o 17. Não podíamos remotamente nem imaginar que sucederia o que sucedeu. Algo estranho, ignoto, terrível estava no ambiente, queríamos voltar estar na Galiza, com os nossos. Mas as comunicações se cortaram o 19 com o Norte e já tudo estava nas ruas de Madrid. No primeiro momento tinhamos um consolo, pensávamos que na Galiza não houvera luta, nem crueldade, nem represálias... Por que havia de havê-las?? o galeguismo desprezava a violência. Mas não importou. A luta foi cruenta e as represálias tremendas.

    - Tenho 125 anos, e mais de 60 de fantasma - diz. Quase um neno sonhava nas ruas santiaguesas numa Galiza ceive, capaz de levantar a sua voz e exprimir o seu espírito por ela própria; onde não existisse caciquismo nem forçosa emigração, sem tanta miséria material e espiritual. Com outros moços, pobres tolos, pensávamos que nos tocaria a lotaria para dedicar a esta missão a nossa fortuna. A fortuna não chegou. Então dedicamos-lhe algo de ainda mais valor: a vida. Quanto havia em nós de mau, de cruel, batalhamos por o domenhar, por arrincá-lo, para ser dignos da tarefa... E logo... logo quando a tarefa parecia feita, era tudo isso o que nos teria feito mais falta para o que aconteceu.

    - Sempre com fé na Galiza mártir... convertim-me num narrador do seu martírio e ainda tratei de organizar com as suas ruínas a sua voz no exílio.


    Deixamos muita cousa, a infância no Pampa, o seu pai, Martelo Paumán, a política e a vida do Rianjo, natal, as anedotas de Compostela e como aprendeu a desenhar com carvão duma lareira apagada, as Irmandades, da sua obra narrativa, da política, dos Cegos na arte, da emigração... o seu segundo enterro (porque Castelão foi enterrado duas vezes, como ele diz por ver se o esqueciam) mas a entrevista se prolonga e temos de partir com o as primeiras luzadas mas não sem antes folgo para uma última pergunta:

    E finalmente, Castelão, que lhes dirias aos políticos galegos de hoje?

    - O mesmo que aos de ontem e trasantontem, são cagadinhos os seus antergos, o único desejar-lhes que venham o antes possível se reunir com estes, que por cá se andam caciqueando.

    Até mais ver e parabéns para você, Doutor Castelão...

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