
Os deploráveis restos dum exército formado por galaico-romanos e suevos cruzam a fume de caroço as terras altas de Trives, seguindo a antiga calçada romana que une Astorga com Braga. Fogem dum outro exército que os persegue: os visigodos. As tropas galegas acabam de sofrer umha humilhante derrota militar na batalha do rio Órbigo que, como o seu próprio nome indica, deveu ser umha batalha de órdago.
Resposta:
Tudo começara uns quarenta anos atrás. Entre banquetes e orgias, os romanos descobrírom no ano 409 que um grupo de tribos das denominadas «bárbaras» (porque nom se lhes entendia o que falavam), procedentes da Europa central, cruzárom os Pirinéus e começárom a roubar e saquear como cosacos. Essas quadrilhas germânicas eram os mesmos fulanos que cruzaram o Rim a pé, aproveitando as fortes geadas do ano 406.
O caso foi que os decadentes romanos, em vez de aniquilarem militarmente aqueles marulos que se pareciam fisicamente a Heino, figérom um pacto com eles e, numha espécie de lotaria, aos chamados suevos (que seriam uns 30.000) tocou-lhes estabelecer-se na Galiza. Escolhérom Braga como a sua capital, provavelmente porque o nome lhes pareceu sexy.
Um pouco de carambola, a província da Gallaecia emancipava-se do poder imperial, com alívio do campesinado, que se livrava da gravosa fiscalidade romana e do espólio colonial dos recursos; e com horror da aristocracia galaico-romana, conservadora e acomplexada, bem representada polo bispo e cronista Idácio de Chaves, que tendemos a imaginar como um Josemi Rodríguez Sieiro alto-medieval. Foi assim que o bravo Hermerico se converteu no primeiro rei do mais antigo reino de Ocidente: o Reino de Galiza, que manteria a sua personalidade jurídica até 1833. Como quem diz, até ontem mesmo.
Com certeza, os suevos nom eram essa «naçom inícua e furiosa» que pintava Idácio. Mas tampouco vamos defender aqui que fossem uns hippies come-flores. Com o passo do tempo, tivérom de alargar o seu rádio de acçom e o rei galego-suevo Requiário --neto de Hermerico que passará à historia por ser o primeiro em acunhar moeda própria e ser um pouco malote-- invadiu Lérida em 455 e passou os Pirinéus para saquear na Gália. Isto foi o que colmatou a paciência duns primos dos suevos chamados visigodos que, comandados polo seu rei Teodorico II, fôrom andar-lhes nas orelhas, enquanto os suevos se retiravam sabiamente para Galiza, com todos os tesouros que roubaram.
Umha vez recuperadas as forças das suas tropas, provavelmente a base de mantecadas, Requiário decide plantar cara aos visigodos em Astorga, na beira do rio Órbigo, para impedir-lhes a entrada no reino que lhe tocara naquele particular bingo com os romanos. Como era previsível, os godos dam-lhes umha boa malheira e Requiário foge com os restos do seu exército para a sua cómoda e segura Braga.
Com a língua de fora, as tropas galaico-suevas cruzam o rio Bibei e sobem a serra de Larouco. Passam Trives, Nemetobriga e, já em Ponte Navea, dirigem-se ao alto de Cerdeira. Já sem fôlegos, alguns escondem parte dos tesouros que levavam, com a intençom de voltar por eles mais tarde. Seria umha boa ideia, de nom ser porque os godos conquistárom e saqueárom Braga o dia 28 de outubro de 456, matando boa parte dos guerreiros galaico-suevos que conseguiram sobreviver à saga-fuga. Aí foi onde os nossos antepassados provárom a sua própria receita.
O que aconteceu com Requiário, o audacioso rei que foi saquear tam longe da casa? Vendo-se perdido, fugiu para o Porto («... extreman ciuitatem Galleciae ...», segundo Idácio), mas aginha foi descoberto e Teodorico II --que, ja agora, era o seu cunhado-- ordenou que lhe cortassem a cabeça, como a Pardo de Cela séculos mais tarde. Naquela pretérita altura, estava na moda a matança política de familiares; em concreto, o próprio Teodorico chegou a rei matando o seu irmao e ele mesmo morreu a maos de outro irmao. Como deviam ser as ceias nessa família!
Depois destes tristes factos, que ainda hoje parece que dá vergonha narrá-los, pouco se soubo da história de Galiza durante um século, até ao ano 550, com a ascensom ao trono suevo de Carriarico e a chegada do evangelizador panónio Martinho de Dúmio . O que sim sabemos é que na Galiza e no norte de Portugal seguimos a ter muitos nomes de lugar de raíz sueva, como som todos os de sufixo –áns / -ães (Bertamiráns, Guimarães, etc.) ou os terminados em –iz (Guitiriz, Alhariz, etc.). Em municípios como Arteixo, Santa Comba, Abanha, Maçaricos, etc. existem vários lugares chamados Suevos, «con dos cojones». Na Laracha encontramos o maravilhoso topónimo Germanha («Xermaña», em normativa ILG-RAG). E, nos indicadores que conduzem ao templo de Santa Comba de Bande, sempre haverá algum malote que, em homenagem a Requiário, corrija com spray a indicaçom «igreja visigótica» por «igreja sueva». E é que, ainda perdendo, «suevos somos e suevos seremos, por visigodos nunca passaremos»
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