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    Sempre perdendo: o suevo Requiário

    Um exclusivo de...
    Franco Vicetto
    Terça, 16 de Fevereiro de 2010

    Os deploráveis restos dum exército formado por galaico-romanos e suevos cruzam a fume de caroço as terras altas de Trives, seguindo a antiga calçada romana que une Astorga com Braga. Fogem dum outro exército que os persegue: os visigodos. As tropas galegas acabam de sofrer umha humilhante derrota militar na batalha do rio Órbigo que, como o seu próprio nome indica, deveu ser umha batalha de órdago.

    Resposta:

    Tudo começara uns quarenta anos atrás. Entre banquetes e orgias, os romanos descobrírom no ano 409 que um grupo de tribos das denominadas «bárbaras» (porque nom se lhes entendia o que falavam), procedentes da Europa central, cruzárom os Pirinéus e começárom a roubar e saquear como cosacos. Essas quadrilhas germânicas eram os mesmos fulanos que cruzaram o Rim a pé, aproveitando as fortes geadas do ano 406.

    O caso foi que os decadentes romanos, em vez de aniquilarem militarmente aqueles marulos que se pareciam fisicamente a Heino, figérom um pacto com eles e, numha espécie de lotaria, aos chamados suevos (que seriam uns 30.000) tocou-lhes estabelecer-se na Galiza. Escolhérom Braga como a sua capital, provavelmente porque o nome lhes pareceu sexy.

    Um pouco de carambola, a província da Gallaecia emancipava-se do poder imperial, com alívio do campesinado, que se livrava da gravosa fiscalidade romana e do espólio colonial dos recursos; e com horror da aristocracia galaico-romana, conservadora e acomplexada, bem representada polo bispo e cronista Idácio de Chaves, que tendemos a imaginar como um Josemi Rodríguez Sieiro alto-medieval. Foi assim que o bravo Hermerico se converteu no primeiro rei do mais antigo reino de Ocidente: o Reino de Galiza, que manteria a sua personalidade jurídica até 1833. Como quem diz, até ontem mesmo.

    Com certeza, os suevos nom eram essa «naçom inícua e furiosa» que pintava Idácio. Mas tampouco vamos defender aqui que fossem uns hippies come-flores. Com o passo do tempo, tivérom de alargar o seu rádio de acçom e o rei galego-suevo Requiário --neto de Hermerico que passará à historia por ser o primeiro em acunhar moeda própria e ser um pouco malote-- invadiu Lérida em 455 e passou os Pirinéus para saquear na Gália. Isto foi o que colmatou a paciência duns primos dos suevos chamados visigodos que, comandados polo seu rei Teodorico II, fôrom andar-lhes nas orelhas, enquanto os suevos se retiravam sabiamente para Galiza, com todos os tesouros que roubaram.

    Umha vez recuperadas as forças das suas tropas, provavelmente a base de mantecadas, Requiário decide plantar cara aos visigodos em Astorga, na beira do rio Órbigo, para impedir-lhes a entrada no reino que lhe tocara naquele particular bingo com os romanos. Como era previsível, os godos dam-lhes umha boa malheira e Requiário foge com os restos do seu exército para a sua cómoda e segura Braga.

    Com a língua de fora, as tropas galaico-suevas cruzam o rio Bibei e sobem a serra de Larouco. Passam Trives, Nemetobriga e, já em Ponte Navea, dirigem-se ao alto de Cerdeira. Já sem fôlegos, alguns escondem parte dos tesouros que levavam, com a intençom de voltar por eles mais tarde. Seria umha boa ideia, de nom ser porque os godos conquistárom e saqueárom Braga o dia 28 de outubro de 456, matando boa parte dos guerreiros galaico-suevos que conseguiram sobreviver à saga-fuga. Aí foi onde os nossos antepassados provárom a sua própria receita.

    O que aconteceu com Requiário, o audacioso rei que foi saquear tam longe da casa? Vendo-se perdido, fugiu para o Porto («... extreman ciuitatem Galleciae ...», segundo Idácio), mas aginha foi descoberto e Teodorico II --que, ja agora, era o seu cunhado-- ordenou que lhe cortassem a cabeça, como a Pardo de Cela séculos mais tarde. Naquela pretérita altura, estava na moda a matança política de familiares; em concreto, o próprio Teodorico chegou a rei matando o seu irmao e ele mesmo morreu a maos de outro irmao. Como deviam ser as ceias nessa família!

    Depois destes tristes factos, que ainda hoje parece que dá vergonha narrá-los, pouco se soubo da história de Galiza durante um século, até ao ano 550, com a ascensom ao trono suevo de Carriarico e a chegada do evangelizador panónio Martinho de Dúmio . O que sim sabemos é que na Galiza e no norte de Portugal seguimos a ter muitos nomes de lugar de raíz sueva, como som todos os de sufixo –áns / -ães (Bertamiráns, Guimarães, etc.) ou os terminados em –iz (Guitiriz, Alhariz, etc.). Em municípios como Arteixo, Santa Comba, Abanha, Maçaricos, etc. existem vários lugares chamados Suevos, «con dos cojones». Na Laracha encontramos o maravilhoso topónimo Germanha («Xermaña», em normativa ILG-RAG). E, nos indicadores que conduzem ao templo de Santa Comba de Bande, sempre haverá algum malote que, em homenagem a Requiário, corrija com spray a indicaçom «igreja visigótica» por «igreja sueva». E é que, ainda perdendo, «suevos somos e suevos seremos, por visigodos nunca passaremos»

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    Escrito às 21:46 nas categorias: Franco Vicetto, Ano Suevo 2010

    8 comentários

    Comentário de: Maria Teresa Compos [Membro] Email

    Viva antes!!!!!!
    Terça, 16 de Fevereiro de 2010 @ 22:59
    Comentário de: koroshiya.itchy [Visitante] · http://koroshiyaitchy.worpress.com/

    Também está Germade:

    http://es.wikipedia.org/wiki/Germade

    Ponho-o em castelhano porque, paradoxalmente, é a única entrada da Wikipedia que emprega a ortografia correcta.
    Terça, 16 de Fevereiro de 2010 @ 23:06
    Comentário de: Galeguzo [Visitante] · http://madeiradeuz.org
    *****

    Faltam também topónimos acabados em -mil, como Damil, Brandomil, Ramil, Recemil... ou em -elhe, como Lobelhe, Corvelhe, Amarelhe, Cartelhe... ou em -ulfe (=lobo) como Recegulfe, Sandulfe, Randulfe, Penas de Gulfe... ou em -unde/-onde/-úndi, como Taramúndi, Trasmúndi, Reimunde, Recemunde, Hermunde, Baamonde, Pardeconde (♫ eu sou de Pardeconde ♪), Gueimonde...

    E, por certo, entre os cabados em -iz não pôr de exemplo Estraviz tem delito! :>>

    Finalmente, está bem assinalar outros topónimos claramente suevos (ou isso parece), como Suevos ou Germade, mas tampouco podemos esquecer as freguesias de Suegos (em Pol, na Terra Chã; e no Vicedo, na Marinha). Suegos/Suevos, a mesma dicotomia que em Guitiriz/Vitiriz ;-)
    Quarta, 17 de Fevereiro de 2010 @ 10:58
    Comentário de: Franco Vicetto [Membro] Email

    Se o ponho tudo, nom me comentades. B) Contudo, seria interessante estudar com certo rigor quais topónimos germânicos procedem da época sueva e quais som posteriores, bem como a sua distribuiçom geográfica.

    Mas terám que ser outros os que se preocupem por isso, que do contrário entra-me o complexo de "hay un hombre en Galicia que lo hace todo".
    Quarta, 17 de Fevereiro de 2010 @ 11:25
    Comentário de: Franco Vicetto [Membro] Email

    Há um dado que nom detalhei no artigo para evitar que fosse longo demais, mas que me parece revelador da personalidade túzara e arroutada do nosso rei Requiário.

    Em princípio, tinha interesse em levar-se bem com os visigodos, até ao ponto de casar com umha filha do rei visigodo Teodorico I. Mas isso nom lhe impediu, indo de caminho à sua boda em Tolosa, saquear Bascónia, e fazer o mesmo com Lérida e Saragossa ao seu regresso do feliz casamento.

    Até certo ponto, é normal que os visigodos flipassem com o jeito que tinha o seu parente suevo-galaico de celebrar as luas de mel.
    Quarta, 17 de Fevereiro de 2010 @ 11:35
    Comentário de: koroshiya.itchy [Visitante] · http://koroshiyaitchy.worpress.com/

    Me pica un suevo:

    http://www.youtube.com/watch?v=DwEELwag81s
    Quarta, 17 de Fevereiro de 2010 @ 15:26
    Comentário de: antón [Visitante] · http://ocorsario.wordpress.com

    velaí vai un moi bo enlace de topónimos:
    http://frornarea.blogspot.com/
    Quinta, 18 de Fevereiro de 2010 @ 09:14
    Comentário de: Silvestre Andrade [Visitante]

    Reino Suevo

    Quando, nos fins do século IV e inícios do século V, os Vândalos se deslocaram do Oeste da Dácia (actual Roménia) para a Panónia Ocidental (hoje a Hungria), crê-se que com eles estaria já um grupo de Suevos. Entre 405 e 406, estes povos, que, apesar de diversos em termos tribais, se encontravam unidos, movimentaram-se rumo a oeste, atravessando a Gália e entrando na Hispânia em cerca de 409.
    Durante muito tempo os territórios ocidentais da Ibéria (ou Hispânia) são assolados, não por exércitos bárbaros, mas por povos bárbaros que acabaram por se fixar em 411. Os Suevos vão instalar-se na Galécia, na faixa litoral a norte do Douro. Também na Hispânia ocidental, a sul do Douro, na costa marítima encontramos populações suevas, que ali teriam chegado por mar.
    Os reis suevos, que se sucedem por linha varonil, procuram conviver com as populações autóctones, criando acordos e alianças que se baseiam na repartição das terras. Era em Braga, ou muito próximo desta cidade, que ficava a corte real dos suevos, onde tinham o seu tesouro e onde se cunhava a moeda.
    A partir de 438, inicia-se um processo de expansão para sul, e todo o Ocidente peninsular é submetido. Em 440, os Suevos chegaram a Mértola, e em 441 conquistam Sevilha. Em 448 sobe ao trono suevo Requiário, que se torna cristão, o primeiro rei "bárbaro" católico da Europa. A partir de 457, o reino suevo entra numa fase um pouco anárquica, marcada pelas lutas políticas entre vários candidatos ao trono, e inclusivamente marcada por lutas com os Godos. Em meados do século VI dá-se um período de reorganização marcado fundamentalmente pelo papel da Igreja, que se associa ao trono, sendo o rei considerado o chefe temporal da Igreja.
    Os Suevos acabam por sofrer as invasões árabes, que, contudo, não apagaram na totalidade as suas construções políticas, territoriais e institucionais.
    O reino suevo teve uma grande importância na medida em que reestruturou a unidade política da faixa litoral noroeste da Península Ibérica, território onde mais tarde nascerá a nação portuguesa.
    Sábado, 15 de Maio de 2010 @ 17:46

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