No passado 13 de Setembro Antón Alonso Rios recebeu em Campo Rapado (lugar da paróquia de Cortegada, Concelho de Silheda, onde em 15 de Agosto de 1887 nasceu) umha merecida e emotiva Homenagem Nacional.
A Homenagem, organizada pola Associaçom Sócio-cultural Adellis e a Comissom pola Memória Sinhor Afrânio com o apoio da Direçom Geral de Criaçom e Difussom Cultural da Conselharia de Cultura e Desporto da Junta de Galiza, desenvolveu-se em duas localizações diferentes: a casa natal do homenageiado e a carvalheira do lugar.
Resposta:
No acto, que contou “con presencia institucional silledense de la alcaldesa, Paula Fernández, y del edil de Cultura, Manuel Cuíña, y la edil del BNG, Carme Hidalgo” (segundo informa para La Coz de Galicia um tal P.V.) interviram Roberto Sobrado (cantor), Xulio Carballo Arceo (representante da familia), Sandra González (Alcaldesa de Tominho), Gonzalo Constenla (Delegado em Ponte-Vedra da Conselharia do Meio Rural), Ângela Bugalho (Conselheira de Cultura e Desporto), Xosé Neira Vilas (escritor e acadêmico), Matías Rodríguez (presidente da Associaçom Sócio-cultural Adellis) e Bieito Alonso Fernández (biógrafo de Antón Alonso Rios).
A Homenagem Nacional serviu também para apresentar o Roteiro do Afânio.
Senhor Afrânio, O Filme
A minha vida dava um filme indiano com certeza deveu pensar o indiano Alonso Rios (apesar de nom chegar a conhecer o Gato Fedorento) em mais de umha ocasiom. Indiano sim, mas nom Bollywoodense. Indiano no sentido de emigrante retornado (ainda que nom rico) da América, das Índias Ocidentais.
Porque em 1908, com 21 anos, Alonso Rios emigrou à Argentina de onde (com o advento da II República Espanhola e enviado, junto com Suárez Picallo, pola Federación de Sociedades Gallegas Agrarias y Culturales) regressaria em 1931, 13 anos depois.
Apenas 8 anos mais tarde (5 de República e 3 de Guerra Civil espanhola) emprenderia o definitivo caminho do exílio argentino nom sem antes protagonizar durante três longos anos umha inacreditável história que a contragosto, acirrado por Xosé María Álvarez Blázquez (autor e editor homenageiado com as Letras Galegas 2008), relataria em O Siñor Afranio ou como me rispei das gadoupas da morte (memórias dum fugido).
Este impressionante testemunho autobiográfico está a ser levado ao cinema polo polifacético Vítor Aparício, Abundância ou Coyote, que contou com esse pedaço de artista que é o Luís Tosar para interpretar o difícil papel do Alonso Rios interpretando, por sua parte, o papel do Senhor Afrânio do Amaral.
Mas nom será esta a primeira vez que o Senhor Afrânio seja levado ao cinema porque, que a nós nos conste, o livro (na ediçom d’A Nossa Terra) já foi levado ao grande ecrám ao menos umha vez.
Em Fronteiras um vizinho de Castro Laboreiro conta ao Rubén Pardiñas, roteirista e diretor do documentário, a para ele desconhecida história do Senhor Afrânio (43:13-45:43). Sem pestanejar vai à sua casa à procura do livro, voltando daí a um pouco com ele nas suas maos (50:14-51:04).
Suicídio ou assassínio?
A estreia do filme dirigido por Vítor Coyote e protagonizado por Luís Tosar está prevista para finais de Outubro, mês em que se comemora o vigésimo oitavo aniversário da morte em estranhas circunstâncias (igual que o seu predecessor na presidência do Conselho de Galiza, Afonso R. Castelao) de Antón Alonso Rios.
À morte de Castelao (que nom conseguiu sobreviver mais de três dias à lobotomia à que foi submetido em 4 de Janeiro de 1950 para em teoria aliviar-lhe as dores produzidas por um suposto cancro de pulmom, mmm) Antón Alonso Rios sucede-o no cargo de Presidente do Conselho de Galiza.
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Se fóssemos como os cataláns e os bascos, se nom morássemos noutra Galáxia, em 1978 Antón Alonso Rios, Presidente do Governo Galego no exílio, teria sido o primeiro Presidente da Junta pré-autonómica em vez do grande cacique António Rosón.
Mas naquela altura ninguém se lembrou do bom e generoso Antón Alonso Rios que morreria apenas dous anos depois, em 12 de Outubro de 1980, Dia de la Hispanidad. Segundo umha pouco divulgada versom oficial (suspeitosamente nengumha das fontes consultadas -Gran Enciclopedia Gallega, Gran Enciclopedia Galega, Enciclopedia Galega Universal, Galipedia...- fam referência a este dado) AR tirou-se a vida (aos 93 anos!!!) atirando-se às vias do trem (o primeiro em contar esta trágica história foi polos vistos o escritor e jornalista Manuel Rivas num artigo, intitulado El Tercer Hombre, que traduzido ao galego e parcialmente reproduzimos ao final).
Há quem quer ver a mao negra da I.T.A. atrás das mortes dos dous únicos presidentes que o Conselho de Galiza tivo. Talvez ao largo do próximo ano, em que as Letras Galegas se dedicam ao seu super-agente Ulm Roan, assistamos à desclassificaçom dalgum documento que confirme este boato. Estaremos alerta!
O Terceiro Homem
Manuel RivasEm 29 de Setembro de 1977, o Governo central decreta o restabelecimento da Generalitat. Volta Tarradellas. Em 4 de Janeiro de 1978 aprova-se o regime pré-autonómico do País Basco. Regressa Leizaola. Num dia gris de 1980, um anciao galego bota-se às vias do trem num arrabalde de Buenos Aires. Morre Antón Alonso Rios.
Dói-me escrever esta história nunca jamais contada. No reino de ucronia, ele devia ter sido o meu presidente. Dalgum jeito, era o nosso Uncas, o nosso último moicano.
A ‘Gran Enciclopedia Gallega’ nom regista nem a data de nascimento nem o trágico final de Alonso Rios. Apenas um punhado de pessoas sabem como acabou os seus dias, na indigência e absolutamente ignorado, o último representante do Conselho de Galiza, o equivalente a um Governo galego no exílio.
O velho que se guindou ao trem fora um meninho emigrante. Na América trabalhou e estudou nas horas livres. Fijo-se professor. Dirigiu um jornal, ‘El Despertar Gallego’. Escreveu livros entintados no sonho dumha arca perdida e que intitulava à maneira de ‘Saudade, misticismo e amore’. Em 1931 regressou à Galiza como quem volta à Terra Prometida, com a mala cheia de sonhos de redençom. Ele e o seu companheiro ‘galaicoamericano’ Suárez Picallo diziam nos comícios das vilas que havia que encher a costa galega com cartazes que indicassem: ‘É proibido emigrar’. Ambos forom eleitos deputados galeguistas nas Cortes da República e devotarom-se na campanha do estatuto de autonomia, aprovado em referendo popular no 28 de Junho de 1936, nas vésperas do alçamento franquista. Conseguiu safar-se da caçada e fugiu à América. Mais umha vez América. O Conselho de Galiza foi constituido em 1944 como “fidecomisário da vontade política do povo galego”. Com os governos basco e catalám formarom a aliança Galeusca. Na foto em sépia leio agora o lema que presidia as suas sessões, “Denantes mortos que escravos”, e vejo a bandeira primorosamente bordada que levou a Paris o presidente Castelao quando se incorporou como ministro ao Governo de Giral naquele tempo de esperança em que a vitória aliada pressagiava a queda do Franco. Meses mais tarde, Castelao voltaria a Buenos Aires desanimado e com a única bagagem da bandeira bordada com o escudo do Santo Graal. Em 1950 enterrarom-no na Chacarita. Sobre o seu túmulo, uns punhados de terra galega que atravessarom o oceano numha entranhável operaçom clandestina que certamente envejariam os espiões sentimentais do John LeCarré.
Alonso Rios apanhou o testemunho. Durante anos e anos reunirom-se ao amparo da bandeira bordada, com o livro de actas sobre umha mesa de mogno cedida polo benfeitor Manuel Puente, um emigrante que figera algo de prata. Quando se iniciou a transiçom, ninguén quijo lembrar-se do Conselho, nem sequer a oposiçom da Galiza ‘interior’. Eles teriam gostado polo menos de trazer à casa a bandeira bordada do Santo Graal.
A pré-autonomia galega aprova-se no 16 de Março de 1978. A “nacionalidade histórica”, assim reconhecida pola Constituiçom democrática, vai estar presidida por Antonio Rosón. Era, naquele tempo, a encarnaçom do grande cacique (...) Mas qualquer cousa estranha ocorreu com o velho Rosón (...) Começou a frequentar a maca de Ramón Piñeiro (...) Antón Alonso Rios acabou vencido pola amargura. Ninguém sabe onde foi parar a bandeira azul e branca bordada com o Santo Graal.
[RIVAS, Manuel, “El Tercer Hombre” in “Memoria de la Transición”, Taurus, Madrid, 1996. págs. 434-435].
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