
Nemésio Barxa
N.d.R.: Como parte do nosso apostolado laico pola erradicaçom do perroflautismo da mocidade galega, temos a honra de publicar, com o consentimento do autor, este erudito artigo do advogado Nemésio Barxa, membro do sanedrim da Irmandade dos Vinhos Galegos, que constitui uma excelente introduçom a um dos nossos mais sabedores sinais de identidade: o vinho. A versom íntegra do artigo pode ser consultada na ediçom especial do número 500 d'A Peneira. Boa leitura e nunc est bibendum!
(…) Não sou um especialista em vinhos, se acaso um amador do vinho, prendido no seu feitiço, na sua incerteza, de companheiro amável do homem tanto para o bem como para o mal; um organismo, ùnico na cultura ocidental, que consumimos vivo, que nos acompanha desde o nascimento até à morte, que serve igual para acrescentar nossas alegrias que para nos consolar nas penas, que fica omniprsente em qualquer acordo, convénio, pacto, convívio, promessa, celebração e que mesmo pode chegar a se transmutar no sangue de um Deus. Pois bem, desde esta perplexidade minha, vou tratar do vinho nas próximas linhas.
Resulta difícil fazer história do vinho, porque é muito mais antigo que qualquer história escrita; a revelação do processo da sua elaboração é atribuido polos egípcios a Ossíris, polos gregos e romanos a Dionisos ou Baco, para os hebreus a Noé,… sempre a deuses ou colaboradores e sempre vencelhado a ritos e costumes. Os romanos, tios listos e hedonistas, desfrutavam dos bons vinhos e quando as suas fronteiras se alongavam mais de Roma, deixárom de levar com eles o vinho para plantarem novos vinhedos naquelas terras que íam conquistando; servia-lhes o mesmo para celebrar a vitória que para entrar em combate ou dialogar demoradamente quando vivaqueavam. Polo séc. XI, na Pérsia (o Irão actual), o poeta Omar Khayyam escrevia: «nosso tesouro? O vinho. Nosso palácio? A taberna. / Nossos fieis companheiros? A sede e a embriaguez»; e mesmo Anacreonte cantava «quando bebo o suave vinho / as minhas desditas sobrelevo, / bebe hóspede, / bebe e vive / que se vivo é porque bebo». Já em tempos menos remotos, toda a nobreza europeia lutou por ter no eu território e os que mais esforço pusérom e mais proveito tirárom fôrom os mosteiros com as suas grandes extensões dedicadas ao cultivo das vides. De tal jeito que foi nascendo a cultura do vinho, comum a todo o mundo ocidental; agora estendida a todo o mundo mundial e, do mesmo jeito que em temos não tão recuados se roubavam relíquias, agora roubam-nos mesmo as castes das uvas.
Resposta:
(…) Falo já dos vinhos galegos. Que som galegos. Nados em toda a Gallaecia, em todo o Reino Suevo, desde o Eu até ao Douro. Mas vou-me reduzir ao solar da velha Gallaecia, a irredenta do mundo lusófono, a que não acaba de ver chegados os tempos dos bardos das idades que seguem sem topar o fim suas vaguedades; ainda que Camões põe a origem da Lusitânia em filhos de Baco, quando diz no Canto III dos Lusíadas: «Esta foi Lusitânia, derivada / de Luso ou Lysa, que de Baco antigo / filhos foram, parece, ou companheiros / e nela então os íncolas primeiros». Aquí sempre houvo vinhedos e vinho; vinhedos autóctones e se por casualidade alguém me diz que fôrom os romanos os que trouxérom as vides, terão que me explicar de onde vem a história essa (tão pouco crível) como que os Césares levavam para o seu consumo particular o vinho de Amándi; ainda bem que Heródoto afirma que foi Grécia a que introduziu o cultivo da vinha e no ocidente europeu. O vinho estivo sempre presente, mesmo no contrato de trabalho com os lavradores. Foi alicerze da economia do país, não só como alimento na economia familiar, mas também nas relações comerciais e no canto dos poetas. Volto a Portugal, ao cabo Galiza do Sul, e a Teixeira de Pascoaes: «o amor e a embriaguez! O vinho e o beijo / dando-se as mãos culposas / molhadas de volupia»; ou o António Cabral, quando define que «é muito simples uma vindima: As mulheres / falam alto, cortam as uvas / fazem de comer e sonham, sonham muito».
Há documentos datados polo ano mil cento e tal em que o mosteiro de Sobrado vendia uma vinha em Esposende e já poucos anos mais tarde o rei Afonso cantava: «Assi com’eu beberia do boo vinho d’Ourens / asssi eu queria boo son de cuncipotens / para mestre Joan». Ao parecer, na Galiza existirom desde o início dos tempos, falam de 5.000 anos a. C., umas vides silvestres, trepadoras polas árvores, e que o seu fruto era aproveitado para o consumo (designadamente no castro da Fonte do Milho aparecérom pepitas e sarmentos carbonizados da Idade de Bronze, 900-800 a. C.) pois, além de não conhecer a elaboração do vinho nem ser ajeitadas a tal fim, os nossos antergos eram mais dados à cerveja, sobre a que opina o poeta Florencio Delgado Gurriarán: «Veña viño e non cerveza / que a cerveza é auga choca / que fai arrotar e cheira…». Foi o cruzamento da variedade silvestre com as cepas trazidas por gregos, cartagineses e romanos (que não chegavam a madurecer pola friagem do clima) o que deu lugar às cepas produtoras de uvas, nascendo as castes mais antigas para a elaboração do vinho, existindo aliás provas de lagares dos séculos IV e V.
Documentos dos séculos VII, VIII e IV dão notícia de que dalquelas já se cultivava a vide e elaborava vinho em todas as comarcas vinícolas actuais. Ainda que o facto do cruzamento das vides galegas com as importadas do Mediterrâneo fai pensar que os primeiros assentamentos de vinhedos e elaboração de vinho fôrom alá polo século I, nas terras mais próximas à costa, o que explica a existência de zonas vinícolas no arredor de todas as rias galegas, desde Viveiro até à Guarda, que posteriormente passárom ao interior polas ribeiras dos rios.
A comercialização do vinho desenvolve-se desde muito cedo, sendo fundamentalmente os mosteiros os seus agentes. O vinho mais apreciado e de maior qualidade é o procedente do Ribeiro; assim, os mais importantes centros comerciais no século XII fôrom Ribadávia e Ourense, esta ao abeiro do foro concedido polo bispo Diego III no ano de 1122, e o mais importante centro receptor Santiago de Compostela, pola grande demanda que efectuam os peregrinos. O rei Bermudo III (s. XI) tinha adega própria em Gomariz (Leiro). A fama dos vinhos do Ribeiro trascendeu as fronteiras e converteu-se em importante exportador, saíndo os seus vinhos fundamentalmente a Inglaterra e logo às colónias americanas através dos portos das Rias Baixas, e desde Ourense aos outros reinos peninsulares; também, dentro da península e às zonas limítrofes se exportam vinhos de Monterrei e Valdeorras, e por Tui saem os vinhos do Condado e do Rosal. A Compostela, ante a falta de vinho do Ribeiro esgotado na exportação, chegam vinhos do Salnês.
O florescimento económico do Ribeiro rematou no s. XVII, entre a intransigência do clero (que se opunha frontalmente ao comércio com os ingleses por serem protestantes), a inveja de outras comarcas menos conhecidas, as guerras com Inglaterra e o abuso dos senhores feudais e da monarquia nas cargas impositivas, que levou consigo o desaparecimento do mercado internacional daquele vinho viajante ao que Manuel Maria cantava: «viño do Ribeiro, dourado como a chama / navegando as néboas de Londres, outro tempo / e sentido soedás de Ribadavia…» E agravou-se no s. XVIII ao virar definitivamente os ingleses para Portugal, onde montárom as suas indústrias de vinho do Porto, prescindindo já dos vinhos do Ribeiro, incluindo o famoso «tostado».
Actualmente, ainda que na Galiza existem cinco denominações de origem perfeitamente diferenciadas, tanto no clima, solos, variedades, etc. (Rias Baixas em Ponte Vedra e Ribeiro, Valdeorras, Monterrei e Ribeira Sacra em Ourense, partilhada a última com Lugo), climatologicamente fala-se de três zonas diferenciadas: Atlântica, que vai do rio Ulha ao rio Minho; Atlântica de Transição, que segue rio Minho acima e afluentes, até chegar à deesembocadura do Sil (zona em que se inclui a do Condado) e Interior, que segue o percurso do Sil até ao Bierzo, incluido as ribeiras do Támega.
Quais sejam as cepas autóctones, sempre é discutível, porque, fora da silvestre inicial, não surdírom por geração espontânea, mas assentárom-se neste solo dando lugar a castes que não tenhem paridade com nenhuma de outros países (bem que ultimamente se realizem em outras zonas plantações de cepas, designadamente alvarinhas). As notas diferenciais da caste não é só a variedade em si, que também, e, muito especialmente, o que os franceses chamam «terroir» e que tem difícil tradução, mas que podemos concretar como o conjunto do solo, pó, subsolo, propriedades físicas, como se interrelaciona com o clima, se reflecte o sol ou absorve a calor, a sua orientação, a sua pendente, os detalhes do seu microclima, etc. Por isso as uvas alvarinhas trasplantadas a outras latitudes não são iguais que as autóctones das Rias Baixas. E por isso podemos considerar como variantes autóctones o alvarinho, a treixadura ou trajadura, o godelho e o verdejo. Também, provavelmente com menos antigüidade, são também autóctones a loureira, a dona branca, o caínho, o brancelhão, o espadeiro, o sousom e a tinta fêmea.
Lembremos os nossos poetas cantando as diversas castes tradicionais, como Eladio Rodríguez González, que no seu poema «A vindima» refere as castes mais frequentes no Ribeiro: «Da loura treixadura / que sabe mesmo a gloria que é un primor / colle o viño tostado a sua dozura… / Cos acios de loureira / méscranse os do dourado torrontés… / as mozas alugadas / que cortan o caíño e o brencellau». Ou como o nosso lembrado Manuel Maria, que cantava: «Ouh, vinhos antergos de Amandi e de Quiroga / con prestixio de hexámetros latinos / viños de Valdeorras que en vos tendes / o vello ouro do Sil: sono e lenda… / Finos caldos do Rosal, tan requintados / como a alma de un fado melancólico! / Viño epadeiro antergo florecido… / Viños galegos lixeiros de beber / fuxidíos e fleves como soños!», como o poeta da raza Ramón Cabanillas que canta ao espadeiro: «Ouh, espadeiro amante! Ouh, rexo e quente / sangue do corazón da nosa terra! / encende o corazón dos apoucados! / Prende lume nas almas, viño celta!!!»; como Antonio Tovar Bobillo que canta ao vinho novo do Ribeiro: «a pel da uva / xa canta como un melro / Olládeo por Barbantes, Esposende e Castrelo, / polas congostras pinas / de Ribadavia e Leiro»; como Celso Emilio, que ía a Ribadavia: «por beber, comadre, / por beber».
Em cada D.O. existem castes determinadas, ainda que podem coexistir também com castes de outras D.O. Porém, podemos assinalar como características em vinhos brancos, as seguintes. Do Ribeiro, a treixadura, godelho-verdejo, lado, loureira e torrontês; das Rias Baixas, o alvarinho –e também na zona do Rosal a loureira–, caínho branco e torrontês; em Valdeorras, o godelho, dona branca e verdejo; em Monterrei, o godelho, verdejo e monstruosa ou branca de Monterrei; e na Ribeira Sacra fundamentalmente godelho e alvarelho, também existem plantações de alvarinho.
Em vinhos tintos, a potencialidade da mencia fai-na a variedade mais importante, e a mais cultivada na Ribeira Sacra e em Valdeorras. Outras variedades tintas importantes som o caínho, brencelhão, espadeiro, sousom, tinta fêmea, lureiro tinto, merenção ou bastardo e outros menos implantados. É de justiça mencionar o pedral e o retinto, significativas variedades na elaboração do vinho de Rubiós.
Todas as variedades mencionadas identificam-se com a terra e os vinhos com elas elaborados também nos identificam dentro e fora da nossa nação. Ficam intensamente arraizadas na terra, mas também na vida da gente. Rosalia de Castro já cantava aquilo de: «todiños peneques, alegres todiños / I a nosa señora detrás do tonel»; e o amor sempre do ganchete nas expressões, como Delgado Gurriarán que canta «teu cabelo é vinho branco / os teus beiços vinho tinto / os teus olhos augardente / quixera beber-te a bicos!» e considera o como «nemigo das tristuras / e pai das risas / amolece os trabalhos / da nossa vida». É de comum consumo, já o dizia o poeta Gumersindo Díaz que: «N’a casa rica hayno sempre; / n’a probe, se n’ela hay festa; / no estio, por mor d’a sede; / en inverno porque quenta». Para mim ainda tem outra virtude, que é o invento da taberna; descrevia assim nos seus versos Gomes Leal: «alguns dormem, nas mesas debruçados / junto aos restos de um vinho já bebido; / outros contam seus casos desgraçados…»; e como elemento mítico da taberna o taberneiro; taberneiro foi Avilés de Taramancos e ao seu ofício dedicou-lhe Darío Xohán Cabana um poema formoso que começa: «tal vez non haxa máis cumprido oficio / para que un poeta gañe o pan que come / ca despender un viño grato ao home / vendéndoo cun prudente beneficio».
Louvor ao vinho galego. E na tema de dignificá-lo, difundi-lo, conhecê-lo e amá-lo, amá-lo, amá-lo, temos criado a confraria «Irmandade dos Vinhos Galegos», na qual nos damos cita gentes amantes do vinho, vinhateiros honestos, colheiteiros sacrificados, aprendizes dos desfrute, comunicadores insatisfeitos e pândigos mais ou menos declarados, unidos todos polo amor aos bons e generosos vinhos galegos, que à sua qualidade acumulam o valor acrescentado dos homens que com sacrifício cultivam as vinhas e os elaboram para os converter em referente de excelência desta nossa nação e sinal de identidade da nossa terra. Além disso, um copo de vinho (sem excessos) pode fazer mais afável qualquer conversa e mais tolerável qualquer controvérsia.
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