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Quinta, 17 de Dezembro de 2009

Pedro de Miranda e os mistérios da Frouxeira
Umha exclusiva de...
Manuel Morrinha

Nota da redacçom: Cumprem-se hoje 525+1 anos da morte do marechal Pardo de Cela. Para celebrarmos o que devia ser o Dia da Pátria Galega, encomendamos ao nosso sábio de cabeceira, Manuel Morrinha, um artigo de fundo sobre Pedro Miranda, o filho do marechal que dorme com ele o sono dos justos na catedral de Mondonhedo. Mas, antes de ler o artigo, recitemos como um mantra anti-colonial os versos do poeta, médico e republicano mindoniense Manuel Leiras Pulpeiro:

DESQUE LLA peta botaron,
naide máis foi á Frouxeira;
soilo Dios puxo froliñas
por entremedias das penas;

froliñas pequerrechiñas,
i agrouladas, que semellan
bágoas de sangue calladas
no bico das carrasqueiras;

froliñas que, con ser froles,
caladamente se queixan
de que tanto, tanto tarden
en cobrarse contas vellas!

Pedro (de) Miranda visto (em Mondonhedo) por Erika Seven (alargar)
e Pedro Miranda a última vez que foi visto polo Tuenti (alargar).


Pedro de Miranda e os mistérios da Frouxeira
por Manuel Morrinha

Uns livros que muito me impressionaram, na minha já longínqua juventude, foram os primeiros da grande história da Galiza que começara a publicar na Argentina o ex-deputado republicano Emílio González López [1]: Grandeza y decadencia del reino de Galicia e La insumisión gallega. Mártires y rebeldes. Do primeiro há uma reedição ampliada em galego feita pela editorial Galaxia mas o segundo nunca foi reeditado e é mágoa. Copio deste segundo volume (a tradução é minha):

Resposta:

“Face a estes magnates, tão leoneses como galegos, e os propriamente galegos que os seguiam, eram uma pequena minoria os que levantaram o estandarte da causa de dona Joana, que chegou a se identificar com a união a Portugal. Mas nesta minoria de partidários do Rei de Portugal e de dona Joana figuram os dois vultos mais vigorosos e notáveis que produziu o nosso povo no ocaso da Idade Média (…): Pedro Álvares de Souto-maior e Pedro Pardo de Cela, símbolos à vez do moribundo feudalismo galego e da eterna rebeldia da Galiza contra o poder dos Reis de Castela. Tanto Pedro Madruga (…) como o marechal Pardo de Cela, foram denodados lutadores que superavam em arroxo e iniciativa militar os caudilhos dos Reis Católicos na Galiza que, para os vencerem, tiveram que importar de Castela e ainda mais de Leão, numerosas tropas. (…)

No norte da província de Lugo e da Corunha, as hostes de Mudarra continuavam a arrecunchar o marechal Pardo de Cela num pequeno território até sitiá-lo na fortaleza da Frouxeira. Morto o condde vinte e de Lemos (fevereiro 1483) Mudarra pode dispor de todas as forças que operavam nas terras de Lugo; porém, ainda com elas era difícil que pudesse tomar a fortaleza quase inexpugnável e bem defendida da Frouxeira. Decidiu então acudir a outros procedimentos menos heróicos e mais eficazes: o suborno dos criados que tinha Pedro Pardo com ele no castelo. Numa saida que fez Pedro Pardo de Cela do castelo, os vinte e dois criados que deixara nele entregam-lha a Mudarra. O de Cela tive que fugir acompanhado pelo seu genro Pedro Miranda, jovem de vinte e dois anos; e trás deles com as suas hostes o sabujo Mudarra. Aos poucos dias (7 dezembro 1483) foram presos Pedro Pardo de Cela e o seu genro Pedro, com alguns fidalgos e lavradores, na casa de Afonsa Eanes, no Castro de Ouro. Este e um dos mistérios da Frouxeira: nuns textos figura Afonsa Eanes e noutros Afonso Eanes.

Fernando de Acuña, que queria impor um castigo exemplar e satisfazer à vez o seu ódio contra o nobre galego que o tivera em xeque durante três anos, levou-o a Mondonhedo em cuja praça o executou aos treze dias de o encarcerar. O corpo do marechal Pardo de Cela e o do seu genro, que foi executado com ele, foram sepultados na capela maior da catedral daquela cidade.

Com a morte do Marechal Pardo de Cela a 17 de dezembro de 1483, vítima da monarquia absoluta castelanizante, desaparecera o último campeão duma longa tradição política galega de luta contra o poder, cada vez mais absorvente dos Reis de Castela na nossa terra”.

O professor, deputado e historiador insere uma nota a rodapé onde diz que que segundo Vicetto o decapitado com Pardo de Cela não era seu genro mas seu filho; e aqui começa um outro dos mistérios da Frouxeira: filho ou genro?

Vejamos que diz Benito Vicetto. Em realidade, não é Vicetto quem fala mas Álvarez Villamil. Umas páginas mais adiante o nosso historiador dá os seus motivos: preferiu utilizar o texto de Álvarez Villamil que, no fundamental é correto, antes do que as suas próprias palavras devido às “tendências clericais” do mesmo. Vicetto, que não deixa de comentar o texto alheio, dá mais força assim aos seus argumentos: nada melhor do que um autor pró-clerical para contar a história de alguém que lutou contra o bispo de Mondonhedo em vez dele mesmo que também se situava na banda oposta à igreja católica. Novamente a tradução é minha:

“Presos o Marechal e os seus -prossegue o mesmo biógrafo- foram conduzidos a Mondonhedo; em cuja cidade dez dias depois, administrados todos os sacramentos, sofreriam morte em garrote ele e seu filho outro dom Pedro, de vinte e dois de idade, e que não tendo feito mal a ninguém, nem cometido mais falta que obedecer a seu pai, assegura a relação que se resignou à morte com o valor e a conformidade de um mártir.

“Foram ambos, pai e filho, sepultados juntos, na capela maior da catedral, perto do púlpito do evangelho,-para que fosse visto que a mesma igreja, cujos bens usurpara, prestava-se na hora da contrição e o esquecimento, a recolher os seus ossos abandonados pela justiça dos homens desde que quedou satisfeita.” (Sarcástica misericórdia) [2]

“Assim concluíram os dias do marechal Pardo de Cela, assim concluiu a sua carreira o defensor mais poderoso da princesa dona Joana na Galiza, e o inimigo mais temível dos Reis Católicos”
.

Mais um mistério: o Marechal e Pedro de Miranda foram decapitados ou garrotados? Parece que a primeira hipótese é a correta e a segunda não seria outra coisa que mais uma mentira dos seus adversários para os desprestigiar (a morte no garrote era muito mais infamante).

Se recorrermos à obra do descendente do Marechal, Eduardo José Pardo, em El mariscal Pedro Pardo de Cela y la Galicia de fines del siglo XV, tampouco se esclarecerão todas as nossas dúvidas. Eduardo José Pardo deixa claro que foram decapitados mas isto já o tínhamos claro nós. Na página 110 fala das duas filhas do Marechal que ninguém nega mas insere uma nota a rodapé que diz (e sigo a traduzir): “A existência de seu filho Pedro, executado com ele em 1483, não está perfeitamente demonstrada”. O autor parece inclinar-se pela existência dadas as suas palavras.

Nas páginas 155-6 dá-nos duas versões diferentes: a de Diego Varela, cronista dos Reis Católicos e a da famosa Relazon da Carta Xecutória. Diz Eduardo José Pardo: o cronista Diego Varela diz que também foram degolados com ele, o seu parente Pedro de Miranda, Garcia Rodriguez de Bordel, Bartolomeu de Bahamonde, um filho do Marechal, cuja existência real não está provada, e outro filho de Pedro Miranda.

O assunto segue a se complicar.... estes historiadores! Agora Pedro de Miranda é um parente, não pode ser genro porque os do Marechal estão bem identificados: um deles, marido de dona Constança resistirá com ela em Caldaloba depois da morte do Marechal. Quem é? E o seu filho? E o filho do Marechal?

Eduardo José Pardo cita o seguinte parágrafo da nunca suficientemente louvada relação:

"Morreu com grande arrependimento dos seus pecados e sinais de bom cristão e o sepultaram junto ao púlpito do evangelho e porta da capela maior da Catedral. Degolaram com ele juntamente a Pero de Miranda Saavedra e Castro seu filho e da sua mulher dona Isabel de Castro" [3]

Bem, temos uma versão que considero autorizada, a da relação: Pero de Miranda Saavedra e Castro era bem filho do Marechal, filho legítimo, aliás. Também Antón José Meilán Garcia, grande especialista no vulto do Marechal dá creto à relação da que, por certo, existem várias versões com algumas diferenças nos pormenores.

Mas nem assim ficam os problemas resolutos, Antón Vilar Ponte e Ramón Cabanillas na sua obra O Mariscal (1926) distinguem entre Pedro Miranda, curmão e segundo do Marechal e seu filho Pedro, sendo os três decapitados juntos. Nada nos impede, porém, pensar numa coincidência de nomes: a existência de um Pedro Miranda, bem conhecido por ser o lugar-tenente do Marechal, explica que na relação se nos dêem todos os apelidos, Pero de Miranda Saavedra e Castro, para os distinguir.

Honra eterna a este moço de vinte e dois anos, morto pela Galiza a mãos dos sequazes dos Reis Católicos!!! Vergonha para os seus assassinos!!!

[1] Pode-se consultar no Sempre en Galiza o transcendental papel que jogou na recuperação do texto do estatuto galego durante a guerra.

[2] Também é sarcástico o comentário do nosso Vicetto.

[3] Modernizei o texto.

Escrito às 0:00 nas castegorias: Back to the Future, Manuel Morrinha
Email , 1597 palavras • Chuza!

9 comentários

Comentário de: Jenaro Jesus Marinhas [Membro] Email
*****

Antes de mais, parabéns ao Manuel Morrinha por este documentadíssimo e magnífico artigo. Mas, afinal, Pedro (de) Miranda era filho do Marechal Pardo de Cela ou nom? (porque no Tuenti anda a reivindicar-se como tal). O mestre Manuel Morrinha levou a nossa encomenda muito a sério e afinal, no artigo, nom respondeu com um SIM ou um NOM categóricos. Copio e colo aqui a macanuda resposta que, meses atrás, nos dera ao resto dos colaboradores de SOQNF polo correio interno:

"Segundo a Relaçom e outras fontes mais ou menos lendárias, o Mariscal foi morto (assassinado) com um seu filho chamado Pedro Miranda. devia ser bastardo, a isto se cingem Cabanilhas e Vilar Ponte que dão esta versão. Entre historiadores, discute-se muito se havia tal filho ou não. Dada a ideologia e o carácter da nossa plataforma devemos considerá-lo como verdade inquestionável".


:)) :)) :))
Quinta, 17 de Dezembro de 2009 @ 12:41
Comentário de: Comba [Visitante]
*****

E era Afonsa ou Afonso Eanes? Acho que esse é um outro misterio para resolver, bem interessante, pois se calhar achegaria alguma luz na maternidade do misterioso Pedro Miranda... Parabéns Manuel Morrinha. Proponho fazer uma sessom de espiritismo na praça da catedral de Mondonhedo. Seguro que dà muito de si!
Quinta, 17 de Dezembro de 2009 @ 13:13
Comentário de: Manuel Morrinha [Membro] Email

A minha opinião é afirmativa. Pedro de Miranda era filho, legítimo segundo a Relação, do Marechal. Apenas quis apurar as diferentes informações; vistas todas parece que houve vários Pedro Miranda é o filho de Pardo de Cela seria Pero de Miranda Saavedra e Castro. Fica categórico ou não?
Quinta, 17 de Dezembro de 2009 @ 13:46
Comentário de: Jenaro Jesus Marinhas [Membro] Email
*****

Fica, fica mas é umha pena. Se fosse bastardo, como Dom Leandro, seria como mais "do coraçom". E se fosse filho de Fonsa Eanes, como aponta a amiga Comba, já nom che digo nada! Claro que se é Fonsa e nom é Fonso, Pardo de Cela já nom seria gay, cousa que estaria bastante guay...

*********

Dos criadores d'O Filho de Tarzan (1939), O Filho de Frankenstein (1939), O Filho de Drácula (1943), O Filho de Chucky (2004), O Filho do Ace Ventura (2009), etc., etc., etc. chega: Pedro Miranda, O Filho de Pardo de Cela!!! :>
Quinta, 17 de Dezembro de 2009 @ 18:04
Comentário de: Erika Seven [Membro] Email

Isto é um culebrom medieval!!

P.D: excelente artigo de Manuel Morrinha, parabéns! As suas lecciones de história som sempre amenas de ler e mui instrutivas. Grazas a Manuel Morrinha somos todos um pouco mais cultos :yes: (eu polo menos :p )
Quinta, 17 de Dezembro de 2009 @ 20:26
Comentário de: Arthur Pondal Doylhe [Membro] Email
*****

Vaiam preparando um rascunho, Morrinha & Jenaro J. Hollywood deveze por um bom argumento... eles põem os extras e podiam mesmo se fazerem ricos... (para a causa, claro...)

88|

Quinta, 17 de Dezembro de 2009 @ 23:15
Comentário de: Jenaro Jesus Marinhas [Membro] Email
*****

Pois já que brincamos com filmes: Sabíades que o recentemente falecido ator, diretor de cinema, roteirista e levantador de pesos pequeno-imperial Paul Naschy (+ 30-NOV-09, Saint Andrew's Day) tem um filme intitulado El Mariscal del Infierno?

el mariscal del infierno


Pensava fazer algumha cousa com isso para comemorar o 525+1 aniversário da decapitaçom do Marechal Pardo de Cela (e do seu filho Pedro Miranda) mas nom me deu a virada :(

Aqui podedes ver algumhas cenas do filme (rodadas no Castelo de Belmonte, província de Cuenca, possível transunto da Frouxeira) que encontrei no YouTube: Belmonte en El Mariscal del Infierno (I, II, III, IV e V).
Sexta, 18 de Dezembro de 2009 @ 11:31
Comentário de: Manuel Morrinha [Membro] Email

Comba tem uma ideia para fazer um filme:D
Sexta, 18 de Dezembro de 2009 @ 13:22
Comentário de: Maria Teresa Compos [Membro] Email

Os meus parabéns ao Manuel Morrinha por esta licçom de História. Gostava de ler algumha cita mais da Relaçom...

avante na dignificaçom dos nossos herois crueis e poderosos!
Domingo, 20 de Dezembro de 2009 @ 00:28

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