
Nom houvo homens da luta na final de eurovisom, mas eu, como eurofriqui aborrecido em noite de sábado, dispugem-me a mirar o festival como cada ano. Nom tem nada vergonhento, é un bom espetáculo de música ligeira, bailes e luzerio. Eurovisom é como mirar o Luar, mas ao grande, e com cantantes mais novos e mais guapos. E com sorte, ao contrário que no Luar, só tens que aturar umha folklórica andaluza entre o elenco de participantes.
Ademais, Eurovisom vem ser como um barómetro de moitas cousas. Antano era o único momento do ano onde alguem saia na televisom ensinando o seu búlgaro (que é un idioma). Cadaquem cantava no seu, e um podia apreciar as diferentes musicalidades do sueco, do albanês ou do turco, sons exóticos que envolviam cada verso cantado numha aura misteriosa. Isto acabou-se: agora tododiolo canta em inglês. Dos 43 participantes este ano só nove cantarom noutra cousa completamente diferente, e outros cinco mesturarom estrofes na sua língua com outras em inglês, num alarde de bilinguismo cordial. Eurovisom mostra cada ano o implacável que é o avance dumha língua dominante, perante o pasmo do apresentador de RTVE, José María Íñigo, quen nom dissimulou o seu escândalo por esse sacrifício das culturas próprias ao deus da globalizaçom. Mesmo na hora das pontuações, onde antes ressoava o inglês à par do francês, o “Iunaitidquindom chupoins, Guaiominí dupuá” ficou só na metade disso. Mesmo assim houvo lugar para as surpresas: No meio dum pélago anglófono surgiu a França, o Estado mais centralista da Europa, para cantar umha fermosa cantiga de amor em… corso!. Nisso, os franceses dam lições, mandar umha cançom numha língua que nem sequer reconhecem como oficial. Umha vez em Espanha, um cantante quijo cantar “la la la” em català e digerom-lhe que nom, nom fora ser que “la la la” nom se entendesse. Também em Espanha há línguas que se sacrificam a um deus globalizador, e nom som permitidos ruidos nem escândalos.
Ademais do avance imparável da diglossia mundial, a outra cousa que mede o barómetro eurovisivo som as simpatias internacionais. Como parte das votações a decide o público via onerosas chamadas telefónicas, cada país vota nom só na cançom que lhe parece melhor, senom no país que lhe cai bem, e com frequência, estas simpatias vam dirigidas a algum vizinho imediato. Isto coloca a alguns países em manifesta desvantagem, como é o caso de Portugal, que en 45 participações, nom ganhou jamais. Umha explicaçom a este feito anormal radica em que só tem um vizinho, e ademais tacanho (pois as suas generosas pontuações à Espanha nunca som devidamente correspondidas). Porém, outros paises conformam comunidades mais ou menos amplas de vizinhos bem relacionados, que se intercambiam votos opulentamente: os paises escandinavos, ou Chipre-Grécia, e mais recentemente, os paises da ex-Iugoslávia, ou os da ex-Uniom Soviética. Isto volta a escandalizar o apresentador José María Íñigo e umha boa parte da audiência espanhola, que observa impotente o como a Bielorrússia e a Ucrânia engordam o saco das suas simpatias comuns, mentres que Espanha apenas conta com os teimosos 12 pontos portugueses. Neste mal-estar há umha evidência nunca reconhecida ou expressada em voz alta: o mito da simpatia dos espanhois, o bem que caen polo mundo adiante, a sua ledícia e caráter festeiro que som inveja do universo som iso. Um mito.
Espanha apresenta-se cada ano ao festival auto-proclamada como favorita, e bate cada ano contra um muro de indiferença do tamanho dos Pireneus. Pode-se ganhar um mundial de futebol metendo mais golos, mas é difícil competir numha eurotaça de simpatias cruzadas onde nom se é dono da bola. Nós, como bons vizinhos dos espanhóis, queremos ajudá-los a superar esta frustraçom. Asim que, à margem da qualidade das canções (isso que fai que o Azerbaijám, um país ao que a maioria dos europeus nom saberia situar no mapa, ganhe o festival), sigam este conselho:
Deixen bascos, catalans e galegos ceivos. Deixarám de ser un incórdio com a sua molesta pertinácia em falar algo diferente à lengua común, e vocês poderám seguir ao seu. Desta maneira, cada um poderá apresentar as suas próprias canções na fala de cada quem. Nom fai falta cantar em inglês; pode-se cantar em corso e ficar bastante melhor do que Espanha. Balcanizádevos. E depois, na hora das votações, saberemos corresponder a boa vizinhança cum quinhoncinho de pontos: Spain tuelf poins, lespanhe duspuá, zankiu Compostela!. Tal e qual fam os sérbios com os bósnio-herzegóvinos e os romaneses com os moldavos. Faremos-vos campeões, ainda que obriguedes a umha galega a cantar em espanhol cumha péssima sintaxe e pronunciando mal os particípios. E que vos quiten o bailao!

A minha indignaçom a propósito da Palestina.
Hoje, a minha principal indignaçom concerne à Palestina, a faixa de Gaza, a Cisjordânia. Este conflito é a fonte mesma dumha indignaçom. É absolutamente necessário ler o relatório Richard Goldstone de setembro de 2009 sobre Gaza, no qual este juiz sul-africano, judeu, que mesmo se declara sionista, acusa o exército israelense de ter cometido “atos asimiláveis a crimes de guerra e talvez, em certas circunstâncias, a crimes contra a humanidade” durante a sua operaçom “chumbo fundido” que durou três semanas. Eu mesmo regressei a Gaza, em 2009, onde pude entrar com a minha mulher graças aos nossos passaportes diplomáticos com o fim de estudar de visu o que este relatório dizia. As pessoas que nos acompanhavam nom foram autorizadas a penetrar na faixa de Gaza. Nem alí nem na Cisjordânia. Visitamos também os campos de refugiados palestinianos dispostos desde 1948 pela agência das Nações Unidas, a UNRWA, onde mais de três milhões de Palestinianos expulssos das suas terras por Israel aguardam um retorno cada vez mais problemático. No que diz respeito à Gaza, é um presídio a céu aberto para um milhom e meio de Palestinianos. Um presídio onde eles se organizam para sobreviver. Mais ainda que as destruções materiais como a do Hospital da Meia Lua vermelha polo "Chumbo fundido", é o comportamento dos gazenses, o seu patriotismo, o seu amor polo mar e as praias, a sua constante preocupaçom polo bem-estar das suas crianças, inumeráveis e rideiras, o que nos enche a memória. Ficamos impressionados pola sua engenhosa maneira de arrostrar todas as penúrias que lhes som impostas. Vimo-los confecionar tijolos ante a falha de cimento para reconstruir os milhares de casas destruidas polos tanques. Foi-nos confirmado que houvera mil e quatrocentos mortos -incluidos mulheres, crianças e idosos no campo palestiniano- no curso desta operaçom "Chumbo fundido" dirigida polo exército israelense, contra unicamente cinquenta feridos do lado israelense. Eu partilho as conclusões do juiz sul-africano. Que os judeus podam perpetrar eles mesmos crimes de guerra, é insuportável. Por desgraça, a história dá poucos exemplos de povos que tirem lições da sua própria história.
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Nenos afoutamente felizes em Gaza
Sei-no, Hamas, que ganhara as últimas eleições legislativas nom pudera evitar que se atiraram foguetes sobre as vilas israelianas em resposta à situaçom de isolamento e de bloqueio em que se encontram os gazenses. Penso, evidentemente, que o terrorismo é inaceitável, mas há que reconhecer que quando se está ocupado com meios militares infinitamente superiores aos vossos, a reaçom popular nom pode ser somente nom-violenta.
É que isso serve a Hamas para atirar foguetes sobre a vila de Sdérot? A resposta é nom. Isso nom serve à sua causa, mas pode-se explicar este gesto pela exasperaçom dos gazenses. Na noçom de exasperaçom fai falta compreender a violência como umha lamentável conclussom de situações inaceitáveis para aqueles que as sofrem. Entom, pode-se dizer que o terrorismo é umha forma de exasperaçom. E que esta exasperaçom é um termo negativo. Nom haveria que ex-asperar, haveria que es-perar. A exasperaçom é umha negaçom da esperança. Ela é comprensível, eu diria quase que é natural, mas no entanto nom é aceitável. Porque nom permite obter os resultados que podem eventualmente produzir a esperança.
A nom-violência, o caminho que devemos apreender a seguir.
Estou convencido que o porvir pertence à nom-violência, à conciliaçom de culturas diferentes. É por esta via que a humanidade deverá superar a sua próxima etapa. E aí, retomo a Sartre, nom se pode escusar os terroristas que atiram bombas, pode-se-lhes compreender. Sartre escreve em 1947: "Reconheço que a violência baixo qualquer forma em que se manifeste é um fracasso. Mas é um fracasso inevitável porque estamos num universo de violência. E se é verdade que o recurso à violência é violência que ameaça com perpetuar-se, também é verdade que é o único meio de fazê-la cessar" (4). A isto acrescentaria que a nom-violência é um meio mais seguro de fazê-la cessar. Nom se pode apoiar como Sartre fijo no nome deste princípio durante a guerra da Argélia, ou durante o atentado dos jogos de Munich, em 1972, cometidos contra os atletas israelianos. Nom é eficaz e o mesmo Sartre rematará por interrogar-se no fim da sua vida sobre o sentido do terrorismo e a duvidar da sua razom de ser. Dizer-se "a violência nom é eficaz", e bem mais importante do que saber se se deve condenar ou nom os que se entregam a ela. O terrorismo nom é eficaz. Na noçom de eficácia, fai falta uma esperança nom-violenta. Se existe umha esperança violenta, é na poesia de Guillaume Apollinaire: "Que violenta é a esperança"; nom em política (6). Sartre, em Março de 1980, a três semanas da sua morte, declarava: "Há que tratar de explicar porque o mundo atual, que é horrivel, nom é mais do que um momento no comprido desenvolvimento histórico, que a esperança foi sempre umha das forças dominantes das revoluções e das insurreições, e como sinto ainda a esperança como a minha conceiçom do porvir" (7).
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Sartre, em 1970, cum olho posto na violência, e o outro na esperança.
Há que compreender que a violência lhe dá as costas à esperança. Há que preferir a esperança, a esperança da nom-violência. É o caminho que devemos apreender a seguir. Tanto do lado dos opressores como dos oprimidos, há que chegar a umha negociaçom para fazer desaparecer a opressom; é o que permitirá nom ter mais violência terrorista. É por isso que nom há que deixar acumular-se demasiado ódio.
A mensagem dum Mandela, dum Martin Luther King encontra toda a sua pertinência num mundo que superou o confronto das ideologias e o totalitarismo conquistador. É umha mensagem de esperança na capacidade das sociedades modernas de superar os conflitos por umha compreensom mútua e umha paciência vigilante. Para chegar a isso, há que apoiar-se sobre os direitos, a violaçom dos quais, quem quiser que seja o autor, deve provocar a nossa indignaçom. Nom há que transigir no tema destes direitos.
Por umha insurreiçom pacífica.
Advertim -e nom som o único- a reaçom do governo israelense confrontado ao feito de que em cada sexta-feira os cidadãos de Bil’id vam, sem guindar pedras, sem utilizar a força, até o muro contra o que protestam. As autoridades israelenses qualificaram esta marcha de "terrorismo nom violento". Nom está mal... há que ser israelense para qualificar de terrorista à nom violência. Há, sobretudo, que estar desconcertado pola eficácia da nom-violência que traz a quem a fomenta o apoio, a compreensom, o sostém de todos aqueles que no mundo som adversários da opressom.
O pensamento produtivista, levado por Ocidente, arrastou o mundo numha crise da que há que sair por meio de umha rutura radical com a fugida para a frente do "sempre mais", no terreno financeiro, mas também no terreno das ciências e das ténicas. Chegou a grande hora em que a preocupaçom pola ética, a justiça, o equilíbrio sustentável venha a ser prevalente. Porque os mais grandes riscos nos ameaçam. Riscos que podem pôr termo à aventura humana sobre um planeta que pode virar inabitável para o homem.
Mas nom deixa de ser verdade que se fizeram importantes progressos desde 1948: a descolonizaçom, o fim do apartheid, a destruiçom do império soviético, a queda do Muro de Berlim. Ao invés, os dez primeiros anos do século XXI foram um período de retrocesso. Este retrocesso, explico-o em parte pola presidência americana de George Bush, o 11 de Setembro, e as consequências desastrosas que tiraram disso os Estados Unidos, como essa intervençom militar no Iraque. Tivemos esta crise económica, mas nom iniciamos umha nova política de desenvolvimento. Da mesma maneira, a cimeira de Copenhague contra o aquecimento climático nom permitiu empreender umha verdadeira política para a preservaçom do planeta. Estamos num umbral, entre os horrores do primeiro decénio e as possibilidades dos decénios seguintes. Mas há que esperar, há sempre que esperar. A década precedente, a dos anos 1990, foi fonte de grandes progressos. As Nações Unidas souberam convocar conferências como as do Rio sobre o meio ambiente, em 1992; a de Pequim sobre as mulheres, em 1995; em Setembro do 2000, por iniciativa do secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, os 191 países membros adoptaram a declaraçom sobre os "oito objectivos do milénio para o desenvolvimento", pola qual se comprometem nomeadamente a reduzir à metade a pobreza no mundo daqui a 2015. A minha grande lástima, é que nem Obama nem a Uniom Européia se manifestaram ainda com isto que deveria ser o seu aporte para uma fase construtiva, que se apoie sobre os valores fundamentais.
Como concluir este chamado a indignar-se? Lembrando ainda que, com ocasiom do sexagésimo aniversário do Programa do Conselho Nacional da Resistência, dizíamos o 8 de Março de 2004, nós, veteranos dos movimentos de Resistência e das forças combatentes da França livre (1940-1945), que certamente "o nazismo foi vencido, graças ao sacrifício dos nossos irmãos e irmãs da Resistência e das Nações unidas contra a barbÁrie feixista. Mas esta ameaça nom desapareceu totalmente e a nossa cólera contra a injustiça permanece sempre intata" (8).
Nom, esta ameaça nom desapareceu totalmente. Também, chamamos sempre a "umHa verdadeira insurreiçom pacífica contra os meios de comunicaçom de massas que nom proponhem como horizonte para a nossa mocidade outra coisa que o consumo massivo, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnesia geralizada e a competiçom sem trégua de todos contra todos".
A aqueles e aquelas que farám o século XXI, dizemos-lhes com o nosso afecto
"CRIAR, É RESISTIR.
RESISTIR, É CRIAR".
NOTAS:
(5) Sartre, J.-P., « Situation de l’ecrivain en 1947» , en Situations II, París, Gallimard, 1948.
(6) Hessel refere-se ao conhecido poema de Guillaume Apollinaire "Le pont Mirabeau", onde se podem ler estes versos:
"L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente".
A popularidade deste poema viu-se acrescentada ao ser musicado e cantado em numerosas versões (Leo Ferre, Serge Reggiani, Nick Garrie, Marc Lavoine, e mesmo The Pogues, por citar algumhas). (N. do T.).
(7) Sartre, J.-P., “Maintenant l’espoir… (III)” em Le Nouvel Observateur, 24 de Março de 1980.
(8) Os assinantes da Chamada do 8 de Março do 2004 som : Lucie Aubrac, Raymond Aubrac, Henri Bartoldi, Daniel Cordier, Philippe Decharte, Georges Guingouin, Stéphane Hessel, Maurice Kriegel-Valrimont, Lise London, Georges Séguy, Germaine Tillion, Jean-Pierre Vernant, Maurice Voutey.

Duas visões da história.
Quando tento compreender aquilo que causou o feixismo, o que fijo com que fôssemos invadidos por ele e por Vichy, digo-me que as classes proprietárias, com o seu egoísmo, estiveram com um medo terrível da revoluçom bolchevique. Deixaram-se guiar polos seus medos. Mas sim, hoje como entom, umha minoria ativa se rebela, isso avondará, teremos o fermento para que a massa levede. Certo, a experiência de um velhinho como eu, nascido em 1917, diferencia-se da experiência dos jovens de hoje. Eu solicito frecuentemente aos professores de secundária a possibilidade de intervir diante dos seus alunos, e digo-lhes: vós nom tendes as mesmas razões evidentes para comprometer-vos. Para nós, resistir, era nom aceitar a ocupaçom alemã, a derrota. Era relativamente simples. Simples como o que seguiu, a descolonizaçom. Depois a guerra da Argélia. Fazia falta que a Argélia virara independente, era evidente. No que di respeito ao Stalin, todos nós aplaudimos a vitória do Exército vermelho contra os nazistas, em 1943. Mas assim que tivemos conhecimento dos grandes processos estalinistas de 1935, e mesmo se fazia falha ter uma orelha aberta para o comunismo para contra-arrestar o capitalismo americano, a necessidade de opor-se a esta forma insuportável de totalitarismo impujo-se como umha evidência. A minha comprida vida deu-me umha sucessom de razões para indignar-me.
Estas razões nascerom menos dumha emoçom que dumha vontade de compromisso. O jovem normalista que eu era, esteve muito marcado por Sartre, um condiscípulo mais velho. A Náusea, O Muro, nom O Ser e a Nada, forom muito importantes na formaçom do meu pensamento. Sartre ensinou-nos a dizer-nos: "Vós sodes responsáveis em tanto que indivíduos". Era umha mensagem libertária. A responsabilidade do homem nom pode confiar-se nem a um poder nem a um deus. Pola contra, deve comprometer-se no nome da sua responsabilidade de pessoa humana. Quando ingressei na escola normal da rua de Ulm, em Paris, em 1939, entrava alí como fervoroso discípulo do filósofo Hegel, e seguia o seminário de Maurice Merleau-Ponty. O seu ensino explorava a experiência concreta, a do corpo e as suas relações com o sentido, grão singular enfrontado ao plural dos sentidos. Mas o meu otimismo natural, que quer que tudo o que seja desejável seja possível, levava-me mais bem para Hegel. O hegelianismo interpreta a comprida história da humanidade como possuidora dum sentido: é a liberdade do homem que progride etapa a etapa. A história está feita de choques sucessivos, é a aceitaçom de desafios. A história das sociedades progride, e no final, unha vez que o homem consegue a sua liberdade completa, temos o Estado democrático na sua forma ideal.
Existe desde logo outra concepçom da história. Os progressos feitos pola liberdade, a competiçom, a carreira cara o “sempre mais”, isto pode ser vivido como um furacám destrutor. É assim que a representa um amigo do meu pai, o homem que partilhou com ele a tarefa de traduzir ao alemão Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. É o filósofo alemão Walter Benjamin. Tirara umha mensagem pessimista de um quadro dum pintor suíço, Paul Klee, o Angelus Novus, no que a figura do anjo abre os braços como para conter e rejeitar umha tempestade que ele identifica com o progresso. Para Benjamin, que se suicidará em setembro de 1940 para fugir do nazismo, o sentido da história, é a marcha irresistível de catástrofe em catástrofe (3).
O "Angelus Novus", de Paul Klee.
A indiferença: a pior das atitudes.
É verdade, as razões para indignar-se podem parecer hoje menos nídias ou o mundo demasiado complicado. Quem manda? quem decide? Nom é sempre singelo distinguir entre todas as correntes que nos governam. Já nom temos que tratar com uma pequena elite cujas artimañas entendemos claramente. Éste é um vasto mundo, no que bem percebemos que é interdependente. Vivemos numha interconectividade como nunca endexamais existiu. Mas neste mundo, há coisas insoportabeis. Para vê-lo, há que mirar bem, pesquisar. Eu digo-lhe aos jovens: Procurade um pouco, ide-lo atopar. A pior das atitudes é a indiferencia, decir: “eu aí nom posso fazer nada, eu mas arranjo”. Comportando-vos assim, perdedes umha das componentes essenciais que faz ao humano. Umha das componentes indispensáveis: a faculdade da indignaçom e o compromisso que é a sua consequência.
Podem-se já identificar dois grandes novos desafios:
1 A imensa diferença que existe entre os muito pobres e os muito ricos e que nom deixa de incrementar-se. Esta é uma inovaçom dos séculos XX e XXI. Os muito pobres no mundo de hoje ganham a penas dois dólares por dia. Nom se pode permitir que esta diferença se incremente ainda mais. Esta soa constatación deve suscitar um compromisso.
2 Os direitos do homem e o estado do planeta. Eu tive a oportunidade depois da Libertaçom de estar associado à redacçom da Declaraçom universal dos Direitos do homem adoptada pela Organizaçom das Nações Unidas, o 10 de Dezembro de 1948, em Paris, no pazo de Chaillot. Foi a título de chefe de gabinete de Henri Laugier, secretário geral adjunto da ONU, e secretário da Comissom dos Direitos do homem que eu, junto com outros, fui levado a participar na redacçom desta declaraçom. Eu nom saberia como esquecer, na sua elaboraçom, o papel de René Cassin, comissário nacional de Justiça e de Educaçom do governo da França livre, em Londres, em 1941, que foi prêmio Nobel da Paz em 1968, nem o de Pierre Mendès France no seio do Conselho económico e social ao que os textos que nós elaborávamos estavam submetidos, antes de serem examinados pela Terceira comissom da assembleia geral, encarregada das questões sociais, humanitárias e culturais. Somavam cinquenta e quatro membros, daquela, as Nações Unidas, e eu ostentaba o secretariado. É a René Cassin que devemos o termo de “direitos universais”, e nom “internacionais” como propunham os nossos amigos anglosaxóns. Já que aí estava a aposta ao sair da segunda guerra mundial: emanciparse das ameaças que o totalitarismo fixo pesar sobre a humanidade. Para emanciparse, havia que conseguir que os Estados membros da ONU se comprometeram a respeitar estes direitos universais. É um modo de desartelhar o argumento da plena soberania que um estado pode fazer valer enquanto se livra a crimes contra a humanidade sobre o seu solar. Este foi o caso de Hitler, que se estimava dono da sua casa e autorizado a provocar um genocídio. Esta declaraçom universal deve muito à revulsión universal contra o nazismo, o feixismo, o totalitarismo, e mesmo, pela nossa presencia, ao espírito da Resistência. Eu sentia que fazia falha fazê-lo rápido, nom deixar-se enganar pela hipocresía que havia na adesión proclamada pelos vencedores a estes valores que nom todos tinham intençom de promover lealmente, mas que nós tentávamos de impor (4).
Asemblea da ONU, o 10 de Decembro de 1948, en París.
Nom resisto as ganhas de citar o artigo 15 da Declaraçom universal dos Direitos do homem: "Todo indivíduo tem o direito a uma nacionalidade"; o artigo 22: "Toda pessoa, em tanto que membro da sociedade, tem direito à Segurança social; esta vai dirixida a obter a satisfaçom dos direitos económicos, sociais e culturais indispensabeis para a dignidade e o livre desenvolvimento da sua personalidade, graças ao esforço nacional e à cooperaçom internacional, tendo em conta a organizaçom e os recursos de cada país”. E se bem esta declaraçom tem um alcance declarativo, e nom jurídico, nom deixou de desempenhar um papel poderoso desde 1948; tem-se visto aos povos colonizados aferrarse a ela na sua loita de independência; ela sementou os seus espíritos no seu combate pela liberdade.
Constato com agrado que no curso dos últimos decenios multiplicaram-se as organizações nom gubernamentais, os movimentos sociais como Attac (Associaçom para a taxación das transacções financeiras), a FIDH (Federaçom internacional dos Direitos do homem), Amnesty... que som activas e competentes. É evidente que para ser eficaz hoje em dia, faz falha actuar em rede, aproveitar todos os meios modernos de comunicaçom.
Aos jovens, digo-lhes: Mirade arredor vossa, encontraredes os temas que justifiquem a vossa indignaçom -o trato dispensado aos imigrantes, aos sem-papéis, aos romanís-. Encontraredes situações concretas que vos levem a dar curso a uma acçom cidadã forte. Buscade e encontraredes!.
(CONTINUARÁ)
NOTAS:
(3) Hessel refere-se ao derradeiro escrito de Walter Benjamin, Über den Begriff der Geschichte (Sobre o conceito de História), de 1940. Nele usa uma acuarela de Paul Klee, Angelus Novus, como metáfora do seu conceito da História: um ser arrepiado pelo progresso, causante da ruina da sociedade. O quadro fora comprado por Benjamin a Klee em 1921, quem a deixou em Paris, guardada na Biblioteca Nacional, em 1940, antes de tentar fugir dos nazistas. Benjamin morreu esse ano em Portbou, em Catalunya, provavelmente suicidado ante a inminencia da sua entrega aos nazistas pelas autoridades feixistas espanholas. O quadro passou logo por diversas mãos de antes de ser legada ao museu de Israel de Jerusalem. (N. do T.).
(4) A Declaração universal dos direitos do homem foi adoptada o 10 de Dezembro de 1948 em Paris, pela Assembleia geral das Nações unidas por 48 Esados sobre 58 membros. Oito abstiveram-se: Sudáfrica, a causa do apartheid que a declaração condenava de facto; Arabia Saudí, pelo mesmo, a causa da igualdade de homens e mulheres; A União Soviética (Rússia, Ucraina, Bielorrusia), Polónia, Checoslovaquia, Jugoslávia, estimavam por sua parte que a Declaração não fora bastante longe na tomada em consideração dos direitos económicos e sociais e sobre a custeión dos direitos das minorias; note-se porém que Rússia em particular opunha-se à proposição australiana de criar umha Corte internacional dos Direitos do homem encarregada de examinar os pedidos dirigidos às Nações unidas; há que lembrar aqui que o artigo 8 da Declaração introduz o princípio do recurso individual contra um Estado em caso de violação dos direitos fundamentais; este princípio ia encontrar na Europa a sua aplicação em 1998, com a criação de uma Corte européia dos direitos do homem permanente que garante este direito de recurso a mais de 800 milhões de europeus.
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