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    Indignade-vos! (e III)

    Um exclusivo de...
    Ano Rosso Quintana
    Sábado, 05 de Fevereiro de 2011

    A minha indignaçom a propósito da Palestina.

    Hoje, a minha principal indignaçom concerne à Palestina, a faixa de Gaza, a Cisjordânia. Este conflito é a fonte mesma dumha indignaçom. É absolutamente necessário ler o relatório Richard Goldstone de setembro de 2009 sobre Gaza, no qual este juiz sul-africano, judeu, que mesmo se declara sionista, acusa o exército israelense de ter cometido “atos asimiláveis a crimes de guerra e talvez, em certas circunstâncias, a crimes contra a humanidade” durante a sua operaçom “chumbo fundido” que durou três semanas. Eu mesmo regressei a Gaza, em 2009, onde pude entrar com a minha mulher graças aos nossos passaportes diplomáticos com o fim de estudar de visu o que este relatório dizia. As pessoas que nos acompanhavam nom foram autorizadas a penetrar na faixa de Gaza. Nem alí nem na Cisjordânia. Visitamos também os campos de refugiados palestinianos dispostos desde 1948 pela agência das Nações Unidas, a UNRWA, onde mais de três milhões de Palestinianos expulssos das suas terras por Israel aguardam um retorno cada vez mais problemático. No que diz respeito à Gaza, é um presídio a céu aberto para um milhom e meio de Palestinianos. Um presídio onde eles se organizam para sobreviver. Mais ainda que as destruções materiais como a do Hospital da Meia Lua vermelha polo "Chumbo fundido", é o comportamento dos gazenses, o seu patriotismo, o seu amor polo mar e as praias, a sua constante preocupaçom polo bem-estar das suas crianças, inumeráveis e rideiras, o que nos enche a memória. Ficamos impressionados pola sua engenhosa maneira de arrostrar todas as penúrias que lhes som impostas. Vimo-los confecionar tijolos ante a falha de cimento para reconstruir os milhares de casas destruidas polos tanques. Foi-nos confirmado que houvera mil e quatrocentos mortos -incluidos mulheres, crianças e idosos no campo palestiniano- no curso desta operaçom "Chumbo fundido" dirigida polo exército israelense, contra unicamente cinquenta feridos do lado israelense. Eu partilho as conclusões do juiz sul-africano. Que os judeus podam perpetrar eles mesmos crimes de guerra, é insuportável. Por desgraça, a história dá poucos exemplos de povos que tirem lições da sua própria história.


    Nenos afoutamente felizes em Gaza

    Sei-no, Hamas, que ganhara as últimas eleições legislativas nom pudera evitar que se atiraram foguetes sobre as vilas israelianas em resposta à situaçom de isolamento e de bloqueio em que se encontram os gazenses. Penso, evidentemente, que o terrorismo é inaceitável, mas há que reconhecer que quando se está ocupado com meios militares infinitamente superiores aos vossos, a reaçom popular nom pode ser somente nom-violenta.

    É que isso serve a Hamas para atirar foguetes sobre a vila de Sdérot? A resposta é nom. Isso nom serve à sua causa, mas pode-se explicar este gesto pela exasperaçom dos gazenses. Na noçom de exasperaçom fai falta compreender a violência como umha lamentável conclussom de situações inaceitáveis para aqueles que as sofrem. Entom, pode-se dizer que o terrorismo é umha forma de exasperaçom. E que esta exasperaçom é um termo negativo. Nom haveria que ex-asperar, haveria que es-perar. A exasperaçom é umha negaçom da esperança. Ela é comprensível, eu diria quase que é natural, mas no entanto nom é aceitável. Porque nom permite obter os resultados que podem eventualmente produzir a esperança.

    A nom-violência, o caminho que devemos apreender a seguir.

    Estou convencido que o porvir pertence à nom-violência, à conciliaçom de culturas diferentes. É por esta via que a humanidade deverá superar a sua próxima etapa. E aí, retomo a Sartre, nom se pode escusar os terroristas que atiram bombas, pode-se-lhes compreender. Sartre escreve em 1947: "Reconheço que a violência baixo qualquer forma em que se manifeste é um fracasso. Mas é um fracasso inevitável porque estamos num universo de violência. E se é verdade que o recurso à violência é violência que ameaça com perpetuar-se, também é verdade que é o único meio de fazê-la cessar" (4). A isto acrescentaria que a nom-violência é um meio mais seguro de fazê-la cessar. Nom se pode apoiar como Sartre fijo no nome deste princípio durante a guerra da Argélia, ou durante o atentado dos jogos de Munich, em 1972, cometidos contra os atletas israelianos. Nom é eficaz e o mesmo Sartre rematará por interrogar-se no fim da sua vida sobre o sentido do terrorismo e a duvidar da sua razom de ser. Dizer-se "a violência nom é eficaz", e bem mais importante do que saber se se deve condenar ou nom os que se entregam a ela. O terrorismo nom é eficaz. Na noçom de eficácia, fai falta uma esperança nom-violenta. Se existe umha esperança violenta, é na poesia de Guillaume Apollinaire: "Que violenta é a esperança"; nom em política (6). Sartre, em Março de 1980, a três semanas da sua morte, declarava: "Há que tratar de explicar porque o mundo atual, que é horrivel, nom é mais do que um momento no comprido desenvolvimento histórico, que a esperança foi sempre umha das forças dominantes das revoluções e das insurreições, e como sinto ainda a esperança como a minha conceiçom do porvir" (7).


    Sartre, em 1970, cum olho posto na violência, e o outro na esperança.

    Há que compreender que a violência lhe dá as costas à esperança. Há que preferir a esperança, a esperança da nom-violência. É o caminho que devemos apreender a seguir. Tanto do lado dos opressores como dos oprimidos, há que chegar a umha negociaçom para fazer desaparecer a opressom; é o que permitirá nom ter mais violência terrorista. É por isso que nom há que deixar acumular-se demasiado ódio.

    A mensagem dum Mandela, dum Martin Luther King encontra toda a sua pertinência num mundo que superou o confronto das ideologias e o totalitarismo conquistador. É umha mensagem de esperança na capacidade das sociedades modernas de superar os conflitos por umha compreensom mútua e umha paciência vigilante. Para chegar a isso, há que apoiar-se sobre os direitos, a violaçom dos quais, quem quiser que seja o autor, deve provocar a nossa indignaçom. Nom há que transigir no tema destes direitos.

    Por umha insurreiçom pacífica.

    Advertim -e nom som o único- a reaçom do governo israelense confrontado ao feito de que em cada sexta-feira os cidadãos de Bil’id vam, sem guindar pedras, sem utilizar a força, até o muro contra o que protestam. As autoridades israelenses qualificaram esta marcha de "terrorismo nom violento". Nom está mal... há que ser israelense para qualificar de terrorista à nom violência. Há, sobretudo, que estar desconcertado pola eficácia da nom-violência que traz a quem a fomenta o apoio, a compreensom, o sostém de todos aqueles que no mundo som adversários da opressom.

    O pensamento produtivista, levado por Ocidente, arrastou o mundo numha crise da que há que sair por meio de umha rutura radical com a fugida para a frente do "sempre mais", no terreno financeiro, mas também no terreno das ciências e das ténicas. Chegou a grande hora em que a preocupaçom pola ética, a justiça, o equilíbrio sustentável venha a ser prevalente. Porque os mais grandes riscos nos ameaçam. Riscos que podem pôr termo à aventura humana sobre um planeta que pode virar inabitável para o homem.

    Mas nom deixa de ser verdade que se fizeram importantes progressos desde 1948: a descolonizaçom, o fim do apartheid, a destruiçom do império soviético, a queda do Muro de Berlim. Ao invés, os dez primeiros anos do século XXI foram um período de retrocesso. Este retrocesso, explico-o em parte pola presidência americana de George Bush, o 11 de Setembro, e as consequências desastrosas que tiraram disso os Estados Unidos, como essa intervençom militar no Iraque. Tivemos esta crise económica, mas nom iniciamos umha nova política de desenvolvimento. Da mesma maneira, a cimeira de Copenhague contra o aquecimento climático nom permitiu empreender umha verdadeira política para a preservaçom do planeta. Estamos num umbral, entre os horrores do primeiro decénio e as possibilidades dos decénios seguintes. Mas há que esperar, há sempre que esperar. A década precedente, a dos anos 1990, foi fonte de grandes progressos. As Nações Unidas souberam convocar conferências como as do Rio sobre o meio ambiente, em 1992; a de Pequim sobre as mulheres, em 1995; em Setembro do 2000, por iniciativa do secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, os 191 países membros adoptaram a declaraçom sobre os "oito objectivos do milénio para o desenvolvimento", pola qual se comprometem nomeadamente a reduzir à metade a pobreza no mundo daqui a 2015. A minha grande lástima, é que nem Obama nem a Uniom Européia se manifestaram ainda com isto que deveria ser o seu aporte para uma fase construtiva, que se apoie sobre os valores fundamentais.

    Como concluir este chamado a indignar-se? Lembrando ainda que, com ocasiom do sexagésimo aniversário do Programa do Conselho Nacional da Resistência, dizíamos o 8 de Março de 2004, nós, veteranos dos movimentos de Resistência e das forças combatentes da França livre (1940-1945), que certamente "o nazismo foi vencido, graças ao sacrifício dos nossos irmãos e irmãs da Resistência e das Nações unidas contra a barbÁrie feixista. Mas esta ameaça nom desapareceu totalmente e a nossa cólera contra a injustiça permanece sempre intata" (8).

    Nom, esta ameaça nom desapareceu totalmente. Também, chamamos sempre a "umHa verdadeira insurreiçom pacífica contra os meios de comunicaçom de massas que nom proponhem como horizonte para a nossa mocidade outra coisa que o consumo massivo, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnesia geralizada e a competiçom sem trégua de todos contra todos".

    A aqueles e aquelas que farám o século XXI, dizemos-lhes com o nosso afecto

    "CRIAR, É RESISTIR.
    RESISTIR, É CRIAR".

    NOTAS:
    (5) Sartre, J.-P., « Situation de l’ecrivain en 1947» , en Situations II, París, Gallimard, 1948.
    (6) Hessel refere-se ao conhecido poema de Guillaume Apollinaire "Le pont Mirabeau", onde se podem ler estes versos:
    "L'amour s'en va comme cette eau courante
    L'amour s'en va
    Comme la vie est lente
    Et comme l'Espérance est violente".

    A popularidade deste poema viu-se acrescentada ao ser musicado e cantado em numerosas versões (Leo Ferre, Serge Reggiani, Nick Garrie, Marc Lavoine, e mesmo The Pogues, por citar algumhas). (N. do T.).
    (7) Sartre, J.-P., “Maintenant l’espoir… (III)” em Le Nouvel Observateur, 24 de Março de 1980.
    (8) Os assinantes da Chamada do 8 de Março do 2004 som : Lucie Aubrac, Raymond Aubrac, Henri Bartoldi, Daniel Cordier, Philippe Decharte, Georges Guingouin, Stéphane Hessel, Maurice Kriegel-Valrimont, Lise London, Georges Séguy, Germaine Tillion, Jean-Pierre Vernant, Maurice Voutey.

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    Escrito às 15:24 nas categorias: Se estám passando, Ano Rosso Quintana

    1 comentário

    Comentário de: Afonso Roda Pés [Visitante]
    *****

    Eu são-vos mais da linha do Walter Benjamin, e a história demostra que não estava errado o home. Suicidou-se para escapar do fascismo, o nosso Hessel fixo-se passar por um morto para sobrevivir a ele. Desta maneira pode comprovar como o Walter tinha ração: "o sentido da história, é a marcha irresistível de catástrofe em catástrofe (3)."

    "A acuarela de Paul Klee, Angelus Novus", "metáfora do seu conceito da História", foi "legada ao museu de Israel de Jerusalem."

    Para-bens meu.



    Terça, 08 de Fevereiro de 2011 @ 20:43

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