Fazemos uma breve pausa na nossa programaçom especial dedicada ao Mundial para informarmos da cimeira intercolonial Galiza-Ceuta, que tivo lugar em Santiago de Compostela. À saída do encontro, o presidente da Cidade Autónoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas Lara e O Nosso Presidente (ONP) reivindicaram a "espanholidade comum" de ambos os territórios, unidos, segundo Alberto Núñez Feijóo, "polo mar e polo Apóstolo Santiago" (Santiago Matamouros, I presume).
Fortes vínculos, sem dúvida. Esqueceu-lhe dizer a ONP que tanto Galiza como Ceuta estám habitadas por "gente maravilhosa", para acabar de emular a coitada Elisabeth Martínez Núñez, Miss Melilha 2001, interrogada polo embaixador da Rússia:
Desconhece talvez ONP que os casos de Ceuta e Melilha fazem parte de uma série de conquistas produzidas em Marrocos, Argélia e Tunísia durante os séculos XV, XVI e XVII, cuja única diferença conceptual e histórica com Tánger, Larache, Argel, etc. é a sua anacrónica persistência. Por exemplo, o presídio de Orám ("Campana, se polo vran / ves lumiar na Ponte-Ceso / a cachela de San Xoán, / dille a todos que estou preso / nos calabozos de Orán", escrevia o grande Eduardo Pondal) estivo em poder da Monarquia pequeno-imperial até 1790, em que foi abandonado por puro esgotamento. Também lhe vam reclamar a sua espanholidade a Abdelaziz Bouteflika?

Também parece ignorar ONP que em 1925, assim que foi controlado e derrotado o levantamento popular do Rif, os territórios de Ceuta e Melilha foram colocados sob a autoridade do Alto Comissariado espanhol em Marrocos (ao mesmo nível que as duas zonas de Protectorado, Ifni e Seguia el Hamra e Tiris el Gharbia) e sob a dependência política e administrativa da Direçom geral de Marrocos e Colónias.
Envoltos na propaganda colonialista espanhola sobre a intrínseca espanholidade na praça, esquecem ONP e o próprio presidente ceutense os múltiples precedentes em que o Império Pequeno planejou o abandono e devoluçom das suas colónias marroquinas, em parte ou globalmente: em 1764, 1790, 1811, 1820, 1872, 1895... Personagens pouco suspeitas de anti-espanholismo como o general Primo de Rivera (em 1917) ou o saudoso --quem o ía dizer-- Fraga Iribarne (em 1976) defenderam a descolonizaçom dos territórios africanos. E no Tratado de incorporaçom do Reino de Espanha à OTAN, Ceuta e Melilha som excluídas expressamente do território sob cobertura dos mecanismos formais de ajuda mútua da aliança imperialista. Mas, que significa isto frente aos poderes taumatúrgicos do Apóstolo Santiago?

Existe, porém, um vínculo inegável entre Galiza e Ceuta: a portuguese connection. Assim, a bandeira de Ceuta é a de S. Vicente (ou de Lisboa) e o seu escudo é o mesmo de Portugal (o escudo das quinas, que dá nome à seleçom de futebol portuguesa). A explicaçom é que a praça de Ceuta foi conquistada inicialmente polo rei João I de Portugal em 1415 e ainda hoje, segundo a Wikipedia lusa, "existem resquícios do idioma galego-português", para além dos maioritários espanhol e árabe. A incorporaçom definitiva (até novo aviso) ao Império Pequeno data de 1668, com o Tratado de Lisboa, o mesmo que reconheceu a independência de Portugal após a época da Ibéria unificada dos Filipes.
A espanholidade, ainda bem, dista muito de ser uma condiçom eterna e irreversível.
Durante a autodenominada "Cruzada de Liberación Nacional" do general Franco foi acunhado o termo "anti España" para designar todas as tendências políticas da esquerda (comunista, socialista ou anarquista), que impugnavam os valores constitutivos da "España eterna" (católica, monárquica, ditatorial e imperial) e uma idiosincrasia nacional orgulhosamente baseada na brutalidade, a voziferaçom, o fanatismo e a intolerância. Valores e idiosincrasia decantados durante séculos de reconquista e colonizaçom, que se poderiam resumir no arrepiante provérbio "Los españoles, donde no llegan con la mano, llegan con la punta de la espada".
A partir de 2004, o colapso do revival neofalangista da "Aznaridad" (como lhe chamava Manuel Vázquez Montalbán) e conseguinte chegada ao poder dum sorridente José Luis Rodríguez Zapatero (ZP) serviu para que alguns incautos (que preferirám chamar-se "optimistas antropológicos") acreditassem sinceramente que a "España eterna" era reformável.
Assim, fitos como a tentativa de processo de paz no País Basco, a aprovaçom do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a regularizaçom de imigrantes, a legislaçom sobre atençom a pessoas dependentes, ou mesmo a lei anti-tabaco, resultavam ontologicamente incompatíveis com os mais sacrosantos valores pequeno-imperiais. Naqueles dias em que desapareceu a VA-CA, parecia como se Espanha fosse deixar de "cheirar a alho" e "ser um país difícil para as mulheres", por recuperar duas citações ao chou da nossa admirada Victoria Beckham (de solteira, Posh Spice).
Porém, a atual crise económica (causada por um capitalismo especulativo que em Espanha tem sabores berlanguianos, com construtores, comissionistas e testaferros) fai-nos observar aquela modernidade impossível como a luz esfumada de uma miragem do deserto. Ainda sob a presidência de ZP, o espanholismo de rosto amável deixou passo a um desolador panorama dominado pola negra sombra da recente reforma laboral (desmantelamento de conquistas históricas da classe trabalhadora) e a ainda mais recente sentença do Tribunal Constitucional sobre o Estatuto da Catalunha (liquidaçom da coexistência respeitosa de realidades nacionais diferentes dentro do Estado).
No meio de tanta desgraça, emerge com força a idolatria do futebol, com umha Selecçom Espanhola (os seus maiores nom lhes perdoariam a alcunha de "La roja") que concentra o fervor religioso, o ardor patriótico e a paixom política dessa "España eterna" em acelerado processo de rearme moral. Por tal motivo, reconheço que me fixo ilusom este cabeçalho do Diário de Notícias: "Galegos anti-Espanha foram a Valença para apoiar Portugal". Talvez sem conhecer as origens históricas do termo, o jornalista português anima-nos a recolhermos o digno testemunho da "anti-Espanha" (internacionalmente conhecido como "anti-fascismo") para (de)construirmos a nossa relaçom com o Império Pequeno: España será "roja" y "rota", o no será.
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