
O arubano Roberto "Bobby" Alonso Farrell --mais conhecido entre nós como "o negro de Boney M.", talvez para o distinguir do branco invisível do grupo-- foi achado hoje morto num quarto de hotel na cidade que nós seguimos a chamar Leningrado.
A Wikipedia espanhola dedica um epígrafe completo do seu artigo sobre Boney M a desmentir a lenda rururbana de que Farrell tinha a sua residência na Galiza. Quem tinha casa em Lugo (no município de Taboada, acrescentamos nós) era um tal Fred Lee, que se apresentava como membro do grupo e estava casado com uma vizinha da localidade.
Porém, o que nenhuma Wikipedia pode negar é que Bobby Farrell tem um lugar reservado nos coraçons de todas as galegas e galegos de bem. As suas habituais e lisérgicas performances no programa Luar, arrimando perigosamente o seu peludo peito a senhoras que podiam ser as nossas mães ou avós, fazem parte da educaçom sentimental de várias gerações e da cultura popular contemporânea da Galiza.
Da derradeira visita de Farrell ao Luar, no passado 16 de outubro, ficará para a posteridade este vídeo no qual o génio do eurodisco versiona com as óptimas Cantereiras de Ardebulho o seu tema Daddy Cool, rebaptizado para a ocasiom como Move o cu.
Filho do colonialismo holandês e negro coma nós, o espírito de Bobby Farrell emprende a sua viagem final a Vénus, destino habitual de cada sábado à noite graças ao LSD. Mas o seu corpo --esse corpinho jeitoso que tantas desgraças lhe trouxo em vida, como reconhecia nesta entrevista ao Faro de Vigo-- deveria descansar para sempre no Panteom de Galegos Ilustres. Méritos nom lhe faltam.

Conta Suetónio como o imperador Vespasiano adoptou audazes medidas fiscais para financiar a construçom do Coliseu romano, um grandioso recinto de lazer em que os primeiros mártires da cristandade serviram de whiskas aos leões.
Em concreto, estabeleceu um imposto sobre a urina. O objecto de tributaçom eram os mijos recolhidos nas latrinas públicas (os quais produziam duplo benefício, pois eram reciclados como fertilizantes para o agro).
Porém, houvo quem nom gostou da inovaçom. Em concreto Tito, o filho do imperador, deu as queixas a seu pai por achar o novo imposto pouco digno. Vespasiano, com retranca, achegou umas moedas ao nariz de Tito e perguntou se lhe cheiravam mal.
E toda vez que o escrupuloso Tito respondera que nom, o imperador deu por resolvido o incidente familiar com uma frase que passaria aos anais da história:
- Pecunia non olet (em latim vulgar, «o dinheiro nom cheira»).
O mesmo deveu pensar o papa Bento XVI. Por muito que procedam do erário de estados que praticam um «laicismo agressivo» (sic), os quartinhos nunca cheiram e, quando ascendem a certas quantidades, mesmo semelha que arrecendem.
Fazemos uma breve pausa na nossa programaçom especial dedicada ao Mundial para informarmos da cimeira intercolonial Galiza-Ceuta, que tivo lugar em Santiago de Compostela. À saída do encontro, o presidente da Cidade Autónoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas Lara e O Nosso Presidente (ONP) reivindicaram a "espanholidade comum" de ambos os territórios, unidos, segundo Alberto Núñez Feijóo, "polo mar e polo Apóstolo Santiago" (Santiago Matamouros, I presume).
Fortes vínculos, sem dúvida. Esqueceu-lhe dizer a ONP que tanto Galiza como Ceuta estám habitadas por "gente maravilhosa", para acabar de emular a coitada Elisabeth Martínez Núñez, Miss Melilha 2001, interrogada polo embaixador da Rússia:
Desconhece talvez ONP que os casos de Ceuta e Melilha fazem parte de uma série de conquistas produzidas em Marrocos, Argélia e Tunísia durante os séculos XV, XVI e XVII, cuja única diferença conceptual e histórica com Tánger, Larache, Argel, etc. é a sua anacrónica persistência. Por exemplo, o presídio de Orám ("Campana, se polo vran / ves lumiar na Ponte-Ceso / a cachela de San Xoán, / dille a todos que estou preso / nos calabozos de Orán", escrevia o grande Eduardo Pondal) estivo em poder da Monarquia pequeno-imperial até 1790, em que foi abandonado por puro esgotamento. Também lhe vam reclamar a sua espanholidade a Abdelaziz Bouteflika?

Também parece ignorar ONP que em 1925, assim que foi controlado e derrotado o levantamento popular do Rif, os territórios de Ceuta e Melilha foram colocados sob a autoridade do Alto Comissariado espanhol em Marrocos (ao mesmo nível que as duas zonas de Protectorado, Ifni e Seguia el Hamra e Tiris el Gharbia) e sob a dependência política e administrativa da Direçom geral de Marrocos e Colónias.
Envoltos na propaganda colonialista espanhola sobre a intrínseca espanholidade na praça, esquecem ONP e o próprio presidente ceutense os múltiples precedentes em que o Império Pequeno planejou o abandono e devoluçom das suas colónias marroquinas, em parte ou globalmente: em 1764, 1790, 1811, 1820, 1872, 1895... Personagens pouco suspeitas de anti-espanholismo como o general Primo de Rivera (em 1917) ou o saudoso --quem o ía dizer-- Fraga Iribarne (em 1976) defenderam a descolonizaçom dos territórios africanos. E no Tratado de incorporaçom do Reino de Espanha à OTAN, Ceuta e Melilha som excluídas expressamente do território sob cobertura dos mecanismos formais de ajuda mútua da aliança imperialista. Mas, que significa isto frente aos poderes taumatúrgicos do Apóstolo Santiago?

Existe, porém, um vínculo inegável entre Galiza e Ceuta: a portuguese connection. Assim, a bandeira de Ceuta é a de S. Vicente (ou de Lisboa) e o seu escudo é o mesmo de Portugal (o escudo das quinas, que dá nome à seleçom de futebol portuguesa). A explicaçom é que a praça de Ceuta foi conquistada inicialmente polo rei João I de Portugal em 1415 e ainda hoje, segundo a Wikipedia lusa, "existem resquícios do idioma galego-português", para além dos maioritários espanhol e árabe. A incorporaçom definitiva (até novo aviso) ao Império Pequeno data de 1668, com o Tratado de Lisboa, o mesmo que reconheceu a independência de Portugal após a época da Ibéria unificada dos Filipes.
A espanholidade, ainda bem, dista muito de ser uma condiçom eterna e irreversível.
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