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    O Padre Posse

    Um exclusivo de...
    Manuel Morrinha
    Segunda, 11 de Abril de 2011

    Tem-se acusado esta iniciativa cívica de anticlerical e, mesmo, de antirreligiosa. Nada mais longe da realidade, e como prova ai vai a nossa homenagem ao padre Posse, primeiro independentista galego conhecido e que, graças aos trabalhos de Lema Suárez (infelizmente pouco difundidos), vai saindo da obscuridade histórica.

    Começarei pelo mais grande: em 1820, segundo conta nas suas memórias, dom João António Posse que sempre foi um liberal extremado, está farto da forma de agir de muitos dos seus companheiros. Assim escreve:

    Reunidas las Cortes ordinarias, fueron a ellas la mayor parte de los vocales que lo habían sido en las extraordinarias (…) Yo desconfiaba mucho de sus luces y buena fe (…) que eran unos pasteleros que no pensaban sino en sus colocaciones y en las de sus amigos; para lo cual aumentaban los sueldos. (...)

    Por esta desconfianza y presentimiento de nuestra ruina escribí a La Coruña y a mi país para tratar de hacerse independiente, erigiéndose en República libre y separada de los demás, pues tenían todo lo necesario para poderse gobernar por sí mismos. Y en este caso podían hacerse confederados de los otros españoles, aliados natos de los ingleses y otras cosas de esta especie que entonces me ocurrieron.

    No gustó esta protesta, y aun fué causa de que se me tuviese por loco en lo sucesivo, y me vi precisado a recoger velas, no volviendo a hablar de ello.

    Que tal nosso querido dom João António Posse? E não se pense que era uma arroutada juvenil, João António Posse nascera numa aldeia de Bergantinhos a finais de 1766; assim que em 1820 era homem maduro, mas quando escreve as suas memórias, dom João António Posse é um velho (para essa época) de sessenta e sete anos e não parece arrepender-se da sua ideia; simplesmente “recolhera velas para não ser tomado por louco”. Que grande o padre Posse!

    João António Posse nasce em Santo Estêvão de Soesto (nessa altura jurisdição de Vimianço e, ao se criarem os concelhos, atribuída ao de Lage) a 26 de dezembro de 1766; passa a sua infância no lugar natal até que, aos doze anos, os pais decidem dar-lhe estudos. Para isso marcha ao vizinho Reino de Leão, nomeadamente à vila de Las Muñecas em pleno páramo leonês, ali era pároco um seu tio que não o acolheu com muito calor, contudo facilita-lhe estudos de gramática e depois envia-o a universidade de Valhadolid para seguir estudos eclesiásticos. Uma vez ordenado vai exercer em tres freguesias leonesas: Llánaves de la Reina (na montanha cântabra, 1794-1798), Lodares (1798-1807) e San Andrés del Rabanedo (1807-1854) hoje um arrabaldo de Leão.

    Em Llánaves viveu duas experiências, uma positiva e outra negativa, onde começa a aparecer o caractere atravessado do tal Posse:Chegou a lhes negar os sacramentos a alguns homens por maltratarem as suas mulheres, aparece-nos Posse como um adiantado do antipatriarcalismo.

    A segunda foi ver que ali as terras não eram privadas mas comuns, repartindo-se cada doze anos entre os vizinhos. Posse adiantado agora do comunismo, vai defender toda a sua vida o coletivismo, considerando que as riquezas eram a causa da corrupção.

    Vemos pois um João António Posse revirado que já nos seus tempos de estudante lia livros proibidos pela Inquisição e opunha-se à infalibilidade papal.

    Quando consegue o curato de San Andrés del Rabanedo, Posse ficara contente pois aspirava a ser algo mais que um padre de aldeia. Porém, asinha, vai ter problemas: a proximidade do bispo, com quem não concordava muito e a saudade que começa a sentir do seu País são a causa. João António Posse intenta conseguir a freguesia de Santa Sabinha na terra de Jalhas mas não o logra; vai permanecer em San Andrés del Rabanedo até a sua morte, em 1854, aos 88 anos de idade.

    Em 1808, ao se produzir a invasão francesa, Posse vai-se opor a ela - pese às suas simpatias pela revolução e república francesas - considerava Posse que a revolução acabara sequestrada pela canga militarista de Napoleão. No curato de San Andrés del Rabanedo acham refúgio os perseguidos pelo exército francês e, consequentemente, a sua reitoral rerá saqueada pelo mesmo em 1809 e 1811.

    Perante os seus fregueses de San Andrés, a 29 de novembro de 1812, pronuncia um sermão elogiando a constituição de Cádis, nele disse:

    Ya no somos esclavos de los reyes: ya somos hombres libres.

    João António Posse vai mais longe do que a monárquica constituição de Cádis e não dissimula o seu republicanismo. Deste sermão houve duas edições com o título de Discurso sobre la Constitución que dixo Don Juan António Posse, uma primeira em Leão, que foi retirada e a segunda na Crunha que correu melhor sorte.

    Este discurso vai ser uma das causas pelas que é processado e condenado durante o primeiro período absolutista de Fernando VII, o delator fora o seu próprio bispo que o acusava também de desafeto ao Papa e de querer abolir a Inquisição. Nas suas memórias (página 185) conta que estando encarcerado:

    Todo esto me tenía tan irritado que, en mis desahogos solía decir: “Que los más malos de los hombres eran los inquisidores; después, los San Andrés del Rabanedo frailes; después los clérigos, y los últimos, los militares”.

    Vemos que João António Posse não era precisamente um modelo de padre. Além disso não gostava do encerro e, em 1916, foge do convento onde estava recluído, chega a Madrid e é detido de novo volvendo à cadeia até 1818; recupera temporalmente a liberdade e marcha para a Galiza, onde passa cinco meses, depois volta a Leão e em janeiro de 1820 comunicam-lhe a resolução da sua causa: 6 anos de reclusão num convento.

    Felizmente, para ele, o triunfo do levantamento de Riego faz que não tenha que cumprir toda a condena. Os seus amigos liberais no poder querem propô-lo para bispo de Tortosa, algo que não aceita. Nesta altura acaba desiludido de muitos dos seus companheiros e é quando escreve a famosa carta da que já se falei.

    Para além das suas memórias (editadas por Richard Herr em 1984) e o seu Discurso sobre la Constitución que dixo Don Juan António Posse (também editado por Richard Herr no mesmo volume), João António Posse publicou, em 1838, uma Plática tercera onde analisa a constituição de 1837, este documento permaneceu ignorado até que Lema Suárez achou um exemplar na casa familiar de Soesto e deu-no a lume em 1,998; se Posse falara muito favoravelmente da constituição de 1812 (bem caro lhe custou!) é muito mais crítico, e com razão com a de 1837 de contido muito menos avançado, Posse critica nomeadamente as excessivas faculdades concedidas pela constituição ao monarca. Como se vê o seu republicanismo matem-se vivo aos seus setenta e dous anos, idade à que publica esta obra.

    Morre dom João António Posse a 12 de maio de 1854, à idade 88 anos em plena lucidez mental como mostram as últimas partidas de nascimento e defunção por ele escritas pouco antes de morrer. Morreu em San Andrés del Rabanedo, longe da Galiza que tanto quis e na que tão pouco viveu, ainda que fez quantas vagens pudo a ela.

    João António Posse, patriota galego, sempre vivo na nossa memória!!!

    Algo de bibliografia:

    João António Posse: Memorias del cura liberal don Juan Antonio Posse com su discurso sobre la constitución de 1812. Edição de Richard Herr. 1984.

    Lema Suárez, X.Mª: Un novo documento de don Juan Antonio Posse. A “Plática Tercera! (1838). 1998.
    AA VV (preparadas por Lema Suárez, X.Mª) : Actas da I Xornada sobre a figura de D. Juan Antonio Posse, o crego liberal, com motivo do 240 aniversario do seu nacemento. 2,008

    Lema Suárez, X.Mª: Don Juan Antonio Posse, o crego liberal: figura senlleira de Vidas de sabios. Un estudo das autobiagrafías dos séculos XVIIIe XIX in A trabe de ouro, número 65

    Herr. Richard: Xosé Mª Lema Suárez: Un novo documento de don Juan Antonio Posse. A “Plática Tercera! (1838) in A trabe de ouro, número 39

    Mariño Paz: A trabe de ouro 41

    Pensado Tomé, José Luís: Galicia en su lengua y en sus gentes. 1,991

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    Escrito às 8:21 nas categorias: Back to the Future, Manuel Morrinha

    A multiplicação dos peixes

    Um exclusivo de...
    Manuel Morrinha
    Quinta, 17 de Março de 2011

    Estava eu a preparar e tomar o meu pequeno almoço e tinha posto o rádio (cadeia SER); não prestava muita atenção mas é a força do costume. Rádio Galicia transmitia o discurso de O Nosso Presidente (ONP), de pronto ouvi-o falar na injusta redução da quota dos nossos pescadores “na xarda, a cavala e a cigala”. Reconheço, humildemente, que numa primeiro impressão pensara na ignorância que se tem atribuído a ONP em assuntos de mar (normal, sendo dos Peares) aproveitando aquela sua pequena equivocação entre Ribeira (lugar) e Ribeira (carpintaria de, trabalho); porém, asinha me dei conta do verdadeiro alcanço das palavras de ONP. Estava a multiplicar os peixes, como o nosso senhor. No que a gente vulgar pensaria tratar-se de dous nomes de um mesmo peixe (xarda e cavala), ele fazia dous peixes diferentes. Animo-o a continuar por esse bem empreendido caminho. Desse jeito poderíamos acrescentar o curreolo (nome que lhe dão em Foz à xarda), o verdel, rincha e tutti quanti. Tratando-se de peixes azuis, muito bons para reduzir a taxa do colesterol, esta multiplicação há ser de um extraordinário interesse tanto para a economia como para a saúde do povo galego. Muito obrigado, caro ONP.

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    Escrito às 13:49 nas categorias: Se estám passando, Manuel Morrinha

    Emília Docet, matriota galega!!!

    Um exclusivo de...
    Manuel Morrinha
    Quarta, 02 de Fevereiro de 2011


    Portada de La Vanguardia (17-02-1933): No pé: "Concurso Nacional de Belleza. Señorita Emilia Docet, que representará a Galicia en la elección de Miss España 1933"

    A segunda vez que temos notícia da participaçom dumha mulher num acto público tem lugar no conhecido como o Gran Mitin das Arengas, em Julho de 1934, no qual participam dazanove dirigentes nacionalistas, entre os que aparece Emília Docet, a qual intervirá em antepenúltimo lugar, justo antes de Castelao e Outeiro Pedraio. A “nota curiosa” desta intervençom, ou melhor dito a explicaçom plausível desre repentino liderato, achamo-la em que Emília Docet fora a ganhadora do concurso Miss Espanha no ano 1933, sendo a sua participaçom neste acto umha importante imagem publicitária para o PG. A crónica que fai ANT da sua intervençom é bastante significativa e reveladora do conteúdo da mesma:

    “ Emilia Docet pronunciou a arenga mais breve, mais singela, mais fermosa... porque soupo comunicarlle a gracia e a fermosura da sua gentilo figura de muller.” (ANT 341, 25/07/1934)

    Surpreende que, num comício em que intervinham dezanove pessoas seja relevante e qualificado de positivo que alguém pronuncie umha arenga breve, curiosamente a única mulher. Os qualificativos outorgados à figura em questom, seguem na mesma linha indicada anteriormente, ocultando deliberadamente a mais mínima mençom ao conteúdo político da intervençom. No caso dos oradores masculinos, ANT fará um resumo pormenorizado das suas reivindicaçons políticas.

    Assim fala Noa Rios Bergantinhos na sua, aliás interessante, participação no congresso sobre o vulto de Bóveda celebrado em 2,003 e cujas atas foram publicadas em 2,009 (das mesmas tirei a minha citação).

    Noa Rios parece crer que Emília Docet era algo assim como um floreiro para o Partido Galeguista e nada mais longe da realidade. Considero que vou esclarecer que o papel de Emília Docet no Partido Galeguista não tinha nada a ver com o de floreiro.

    Tanto Noa Rios Bergantinhos como o nosso Conrado Lousada de Lemos equivocam-se ao citarem ANT 341, 25/07/1934; se calhar o seu erro vem condicionado por consultarem a edição fac-similar do jornal nacionalista: está montada de tal jeito que é fácil confundir um número com o seguinte. Contudo resulta estranho que uma historiadora avezada como Noa Rios não se desse conta do erro: mal podia informar A Nosa Terra de 25 de julho dos atos acontecidos esse mesmo dia, trata-se do seguinte número: o 342 datado a 4 de agosto. Aliás, não eram apenas “dirigentes nacionalistas” como diz Noa Rios, não se podem considerar como tais (em 1934) Ramón Piñeiro, Henrique Peinador e muitos outros dos oradores. Além disso, no mesmo jornal informa-se:

    Ao rematar Banet Fontenla (1), o irmán Illa Couto (2) anuncia que acaba de chegar Emília Docet , “a primeira muller que soupo sentirse orgulosamente galega fora da súa Terra”

    (1) O segundo dos oradores.
    (2) Das Mocidades Galeguistas, como Emília Docet.

    Vejamos agora quem era Emília Docet: filha de mai peruana, nasceu em Vigo em 1913 e cursou estudos na Escola de Comércio de dita cidade, não eram muitas as mulheres que estudavam naquela altura. Aliás, era uma excelente desportista que praticava remo e natação no Clube Marítimo da Crunha, ali ensinou os seus companheiros a prática do crawl, estilo de natação que então resultava uma novidade.

    Emília Docet comprometeu-se, a fundo, com os problemas sociais e políticos da sua Terra; por exemplo apresentou-se perante o ministro de Agricultura da República para lograr que lhes levantassem o embargo a 7,000 camponeses do Porrinho avalistas de um empréstimo estatal para levantarem um matadoiro nessa vila.

    Porém, a causa a que mais se entregou Emília Docet e pela qual é mais conhecida foi a da liberdade da Galiza. Pertencia ao Círculo Galeguista de Vigo e uma vez criado o Partido Galeguista formaria parte do mesmo até a criação das Mocidades Galeguistas, onde por razões de idade militaria.

    Emília Docet recebeu várias homenagens; a mais conhecida seria o banquete, celebrado em Ourense a 14 de junho de 1934:

    Homenagem dandy-galeguista a Emília Docet

    Na imagem estão Vicente Risco (beira esquerda) e Otero Pedrayo, diante da bandeira; também Álvaro Cunqueiro, o poeta Manuel Luís Acuña, Ramiro Illa Couto, Leuter González Salgado , Afonso Vázquez Monxardín, Fita ou Josefa Bustamante (mulher de Otero), Manuel Peña Rei (presidente do PG em Ourense), E. Blanco Amor, José Luís Ramos, José Goyanes, etc. ). Aparecem todos os assistentes identificados no livro que Edicións Xerais lhe dedicou a Manuel Luís Acuña.

    Como informava o nosso companheiro Conrado Lousada de Lemos em janeiro de 2,009; a Milinha, como era conhecida pelos amigos e camaradas do PG, decidiu que havia que chamar a atenção em Madrid quando se celebrar o concurso (14 de fevereiro de 1933). Assim o conta o caro Conrado:

    A ideia fora da própria Emília. Quando lhe falamos de chamarmos a atenção sobre a nossa secular dependência, foi ela quem diz: "Não mais voltas, berrarei Viva Galiza Ceive! E já vereis como entendem. Já vereis esses do ABC, hó!".

    Como se vê Emília era uma mulher moderna, culta, desportista, preocupada pela realidade social e política do seu tempo, com um certo aquele de “dandismo”. Os tempos mudam e podemos estar seguros que hoje Emília Docet não se teria apresentado a nenhum concurso de beleza como fez em 1933, seguramente pressionada por parentes e amizades.

    Conrado Lousada de Lemos acabava assim a sua exclusiva de janeiro de 2,009:

    Nós hoje, como ela naquela altura, berramos também: Viva Galiza Ceive (e socialista)! Decerto que, se a Milinha nos pudesse ouvir, responderia forte com as mesmas palavras que pronunciara para genreira castelhana.

    Hoje, no aniversário de Emília Docet finada em Vigo a 2 de fevereiro de 1,995: quero render-lhe a minha homenagem a esta patriota / matriota que sempre ficará na nossa memória.

    Honra eterna a Emília Docet, matriota galega!!!

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