Durante a autodenominada "Cruzada de Liberación Nacional" do general Franco foi acunhado o termo "anti España" para designar todas as tendências políticas da esquerda (comunista, socialista ou anarquista), que impugnavam os valores constitutivos da "España eterna" (católica, monárquica, ditatorial e imperial) e uma idiosincrasia nacional orgulhosamente baseada na brutalidade, a voziferaçom, o fanatismo e a intolerância. Valores e idiosincrasia decantados durante séculos de reconquista e colonizaçom, que se poderiam resumir no arrepiante provérbio "Los españoles, donde no llegan con la mano, llegan con la punta de la espada".
A partir de 2004, o colapso do revival neofalangista da "Aznaridad" (como lhe chamava Manuel Vázquez Montalbán) e conseguinte chegada ao poder dum sorridente José Luis Rodríguez Zapatero (ZP) serviu para que alguns incautos (que preferirám chamar-se "optimistas antropológicos") acreditassem sinceramente que a "España eterna" era reformável.
Assim, fitos como a tentativa de processo de paz no País Basco, a aprovaçom do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a regularizaçom de imigrantes, a legislaçom sobre atençom a pessoas dependentes, ou mesmo a lei anti-tabaco, resultavam ontologicamente incompatíveis com os mais sacrosantos valores pequeno-imperiais. Naqueles dias em que desapareceu a VA-CA, parecia como se Espanha fosse deixar de "cheirar a alho" e "ser um país difícil para as mulheres", por recuperar duas citações ao chou da nossa admirada Victoria Beckham (de solteira, Posh Spice).
Porém, a atual crise económica (causada por um capitalismo especulativo que em Espanha tem sabores berlanguianos, com construtores, comissionistas e testaferros) fai-nos observar aquela modernidade impossível como a luz esfumada de uma miragem do deserto. Ainda sob a presidência de ZP, o espanholismo de rosto amável deixou passo a um desolador panorama dominado pola negra sombra da recente reforma laboral (desmantelamento de conquistas históricas da classe trabalhadora) e a ainda mais recente sentença do Tribunal Constitucional sobre o Estatuto da Catalunha (liquidaçom da coexistência respeitosa de realidades nacionais diferentes dentro do Estado).
No meio de tanta desgraça, emerge com força a idolatria do futebol, com umha Selecçom Espanhola (os seus maiores nom lhes perdoariam a alcunha de "La roja") que concentra o fervor religioso, o ardor patriótico e a paixom política dessa "España eterna" em acelerado processo de rearme moral. Por tal motivo, reconheço que me fixo ilusom este cabeçalho do Diário de Notícias: "Galegos anti-Espanha foram a Valença para apoiar Portugal". Talvez sem conhecer as origens históricas do termo, o jornalista português anima-nos a recolhermos o digno testemunho da "anti-Espanha" (internacionalmente conhecido como "anti-fascismo") para (de)construirmos a nossa relaçom com o Império Pequeno: España será "roja" y "rota", o no será.
Chegam informaçons sobre tímidos intentos ridiculistas em Euskal Herria. Este intrépido reporter deixou as férias e deslocou-se sem demora até lá e assim traer umha crónica para os nossos leitores.
O Império Pequeno nom deixa de oferecer novas oportunidades para o assombro e a actuaçom: que um juiz considere “ilegalizável” um torneio de mus, um jogo de futebol de salom e umha a jantança que iam decorrer nas festas da vila basca de Hernâni e insuperável como material de humor.
O magistrado Grande-Marlaska afirmou que de se celebrarem essas actividades seriam “umha clara homenagem o conjunto de presos da organizaçom terrorista ETA”. Nom queremos imaginar o que aconteceria se as actividades fossem um torneio de birlos ou chave (pura alegoria da kale borroka) e já nom falamos da petanca, símbolo oculto de irmanamento com os movimentos occitânicos e do terrorismo internacional.

Dentro desses esféricos podem ocultar qualquer cousa... até mais balons! Pensam os agentes.
Sendo já ridícula a decisom do togado espanhol alguns rapazes da vila decidírom respostar com as mesmas armas. Nom sabemos se de jeito espontâneo ou guiados por algumha organizaçom cripto-ridiculista que nom conhecemos, mas anteontem jovens com balons de escuma e calças de desporto percorrêrom as ruas durante as celebraçons e improvisarom umha pachanga com adestradores e árbitros incluídos.
Por desgraça na Galiza sabemos que a reacçom das forças de ocupaçom é a mesma vaias disfarçado de toureiro, jogador de futebol ou cidadao próspero: Bater nas costas dos manifestantes sem importar que a imagem resultante duplique o seu valor simbólico. Já podem supor, antes de ler a crónica em Gara, que os Ertzaintzas decidírom que ante o perigo do poli-carbonato expandido dos balons a melhor estratégia era a mui democrática porra -também um poli-carbonato, mas com um pouco mais de “espírito”-.
Desde Sei o que nos Figestes nos últimos 525 anos queremos solidarizar-nos com esta acçom exemplar e parabenizar a estes raparigos euskalduns que parecem acreditar também em que a festa é o único caminho, ou umha boa opçom para os dias feriados.

Se eu fosse catalao diria aquilo de que jo tinc dues seleccions: CATALUNYA i quasevol que jugui CONTRA ESPANYA. Mas como sou galego eu digo: Eu tenho duas seleções: GALIZA e qualquer umha que jogar CONTRA ESPANHA. E quando digo "qualquer umha" quero dizer exatamente isso, "qualquer umha".
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