
Duas visões da história.
Quando tento compreender aquilo que causou o feixismo, o que fijo com que fôssemos invadidos por ele e por Vichy, digo-me que as classes proprietárias, com o seu egoísmo, estiveram com um medo terrível da revoluçom bolchevique. Deixaram-se guiar polos seus medos. Mas sim, hoje como entom, umha minoria ativa se rebela, isso avondará, teremos o fermento para que a massa levede. Certo, a experiência de um velhinho como eu, nascido em 1917, diferencia-se da experiência dos jovens de hoje. Eu solicito frecuentemente aos professores de secundária a possibilidade de intervir diante dos seus alunos, e digo-lhes: vós nom tendes as mesmas razões evidentes para comprometer-vos. Para nós, resistir, era nom aceitar a ocupaçom alemã, a derrota. Era relativamente simples. Simples como o que seguiu, a descolonizaçom. Depois a guerra da Argélia. Fazia falta que a Argélia virara independente, era evidente. No que di respeito ao Stalin, todos nós aplaudimos a vitória do Exército vermelho contra os nazistas, em 1943. Mas assim que tivemos conhecimento dos grandes processos estalinistas de 1935, e mesmo se fazia falha ter uma orelha aberta para o comunismo para contra-arrestar o capitalismo americano, a necessidade de opor-se a esta forma insuportável de totalitarismo impujo-se como umha evidência. A minha comprida vida deu-me umha sucessom de razões para indignar-me.
Estas razões nascerom menos dumha emoçom que dumha vontade de compromisso. O jovem normalista que eu era, esteve muito marcado por Sartre, um condiscípulo mais velho. A Náusea, O Muro, nom O Ser e a Nada, forom muito importantes na formaçom do meu pensamento. Sartre ensinou-nos a dizer-nos: "Vós sodes responsáveis em tanto que indivíduos". Era umha mensagem libertária. A responsabilidade do homem nom pode confiar-se nem a um poder nem a um deus. Pola contra, deve comprometer-se no nome da sua responsabilidade de pessoa humana. Quando ingressei na escola normal da rua de Ulm, em Paris, em 1939, entrava alí como fervoroso discípulo do filósofo Hegel, e seguia o seminário de Maurice Merleau-Ponty. O seu ensino explorava a experiência concreta, a do corpo e as suas relações com o sentido, grão singular enfrontado ao plural dos sentidos. Mas o meu otimismo natural, que quer que tudo o que seja desejável seja possível, levava-me mais bem para Hegel. O hegelianismo interpreta a comprida história da humanidade como possuidora dum sentido: é a liberdade do homem que progride etapa a etapa. A história está feita de choques sucessivos, é a aceitaçom de desafios. A história das sociedades progride, e no final, unha vez que o homem consegue a sua liberdade completa, temos o Estado democrático na sua forma ideal.
Existe desde logo outra concepçom da história. Os progressos feitos pola liberdade, a competiçom, a carreira cara o “sempre mais”, isto pode ser vivido como um furacám destrutor. É assim que a representa um amigo do meu pai, o homem que partilhou com ele a tarefa de traduzir ao alemão Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. É o filósofo alemão Walter Benjamin. Tirara umha mensagem pessimista de um quadro dum pintor suíço, Paul Klee, o Angelus Novus, no que a figura do anjo abre os braços como para conter e rejeitar umha tempestade que ele identifica com o progresso. Para Benjamin, que se suicidará em setembro de 1940 para fugir do nazismo, o sentido da história, é a marcha irresistível de catástrofe em catástrofe (3).
O "Angelus Novus", de Paul Klee.
A indiferença: a pior das atitudes.
É verdade, as razões para indignar-se podem parecer hoje menos nídias ou o mundo demasiado complicado. Quem manda? quem decide? Nom é sempre singelo distinguir entre todas as correntes que nos governam. Já nom temos que tratar com uma pequena elite cujas artimañas entendemos claramente. Éste é um vasto mundo, no que bem percebemos que é interdependente. Vivemos numha interconectividade como nunca endexamais existiu. Mas neste mundo, há coisas insoportabeis. Para vê-lo, há que mirar bem, pesquisar. Eu digo-lhe aos jovens: Procurade um pouco, ide-lo atopar. A pior das atitudes é a indiferencia, decir: “eu aí nom posso fazer nada, eu mas arranjo”. Comportando-vos assim, perdedes umha das componentes essenciais que faz ao humano. Umha das componentes indispensáveis: a faculdade da indignaçom e o compromisso que é a sua consequência.
Podem-se já identificar dois grandes novos desafios:
1 A imensa diferença que existe entre os muito pobres e os muito ricos e que nom deixa de incrementar-se. Esta é uma inovaçom dos séculos XX e XXI. Os muito pobres no mundo de hoje ganham a penas dois dólares por dia. Nom se pode permitir que esta diferença se incremente ainda mais. Esta soa constatación deve suscitar um compromisso.
2 Os direitos do homem e o estado do planeta. Eu tive a oportunidade depois da Libertaçom de estar associado à redacçom da Declaraçom universal dos Direitos do homem adoptada pela Organizaçom das Nações Unidas, o 10 de Dezembro de 1948, em Paris, no pazo de Chaillot. Foi a título de chefe de gabinete de Henri Laugier, secretário geral adjunto da ONU, e secretário da Comissom dos Direitos do homem que eu, junto com outros, fui levado a participar na redacçom desta declaraçom. Eu nom saberia como esquecer, na sua elaboraçom, o papel de René Cassin, comissário nacional de Justiça e de Educaçom do governo da França livre, em Londres, em 1941, que foi prêmio Nobel da Paz em 1968, nem o de Pierre Mendès France no seio do Conselho económico e social ao que os textos que nós elaborávamos estavam submetidos, antes de serem examinados pela Terceira comissom da assembleia geral, encarregada das questões sociais, humanitárias e culturais. Somavam cinquenta e quatro membros, daquela, as Nações Unidas, e eu ostentaba o secretariado. É a René Cassin que devemos o termo de “direitos universais”, e nom “internacionais” como propunham os nossos amigos anglosaxóns. Já que aí estava a aposta ao sair da segunda guerra mundial: emanciparse das ameaças que o totalitarismo fixo pesar sobre a humanidade. Para emanciparse, havia que conseguir que os Estados membros da ONU se comprometeram a respeitar estes direitos universais. É um modo de desartelhar o argumento da plena soberania que um estado pode fazer valer enquanto se livra a crimes contra a humanidade sobre o seu solar. Este foi o caso de Hitler, que se estimava dono da sua casa e autorizado a provocar um genocídio. Esta declaraçom universal deve muito à revulsión universal contra o nazismo, o feixismo, o totalitarismo, e mesmo, pela nossa presencia, ao espírito da Resistência. Eu sentia que fazia falha fazê-lo rápido, nom deixar-se enganar pela hipocresía que havia na adesión proclamada pelos vencedores a estes valores que nom todos tinham intençom de promover lealmente, mas que nós tentávamos de impor (4).
Asemblea da ONU, o 10 de Decembro de 1948, en París.
Nom resisto as ganhas de citar o artigo 15 da Declaraçom universal dos Direitos do homem: "Todo indivíduo tem o direito a uma nacionalidade"; o artigo 22: "Toda pessoa, em tanto que membro da sociedade, tem direito à Segurança social; esta vai dirixida a obter a satisfaçom dos direitos económicos, sociais e culturais indispensabeis para a dignidade e o livre desenvolvimento da sua personalidade, graças ao esforço nacional e à cooperaçom internacional, tendo em conta a organizaçom e os recursos de cada país”. E se bem esta declaraçom tem um alcance declarativo, e nom jurídico, nom deixou de desempenhar um papel poderoso desde 1948; tem-se visto aos povos colonizados aferrarse a ela na sua loita de independência; ela sementou os seus espíritos no seu combate pela liberdade.
Constato com agrado que no curso dos últimos decenios multiplicaram-se as organizações nom gubernamentais, os movimentos sociais como Attac (Associaçom para a taxación das transacções financeiras), a FIDH (Federaçom internacional dos Direitos do homem), Amnesty... que som activas e competentes. É evidente que para ser eficaz hoje em dia, faz falha actuar em rede, aproveitar todos os meios modernos de comunicaçom.
Aos jovens, digo-lhes: Mirade arredor vossa, encontraredes os temas que justifiquem a vossa indignaçom -o trato dispensado aos imigrantes, aos sem-papéis, aos romanís-. Encontraredes situações concretas que vos levem a dar curso a uma acçom cidadã forte. Buscade e encontraredes!.
(CONTINUARÁ)
NOTAS:
(3) Hessel refere-se ao derradeiro escrito de Walter Benjamin, Über den Begriff der Geschichte (Sobre o conceito de História), de 1940. Nele usa uma acuarela de Paul Klee, Angelus Novus, como metáfora do seu conceito da História: um ser arrepiado pelo progresso, causante da ruina da sociedade. O quadro fora comprado por Benjamin a Klee em 1921, quem a deixou em Paris, guardada na Biblioteca Nacional, em 1940, antes de tentar fugir dos nazistas. Benjamin morreu esse ano em Portbou, em Catalunya, provavelmente suicidado ante a inminencia da sua entrega aos nazistas pelas autoridades feixistas espanholas. O quadro passou logo por diversas mãos de antes de ser legada ao museu de Israel de Jerusalem. (N. do T.).
(4) A Declaração universal dos direitos do homem foi adoptada o 10 de Dezembro de 1948 em Paris, pela Assembleia geral das Nações unidas por 48 Esados sobre 58 membros. Oito abstiveram-se: Sudáfrica, a causa do apartheid que a declaração condenava de facto; Arabia Saudí, pelo mesmo, a causa da igualdade de homens e mulheres; A União Soviética (Rússia, Ucraina, Bielorrusia), Polónia, Checoslovaquia, Jugoslávia, estimavam por sua parte que a Declaração não fora bastante longe na tomada em consideração dos direitos económicos e sociais e sobre a custeión dos direitos das minorias; note-se porém que Rússia em particular opunha-se à proposição australiana de criar umha Corte internacional dos Direitos do homem encarregada de examinar os pedidos dirigidos às Nações unidas; há que lembrar aqui que o artigo 8 da Declaração introduz o princípio do recurso individual contra um Estado em caso de violação dos direitos fundamentais; este princípio ia encontrar na Europa a sua aplicação em 1998, com a criação de uma Corte européia dos direitos do homem permanente que garante este direito de recurso a mais de 800 milhões de europeus.
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