
Nestes dias de celebraçom solsticial, chegou às caixas de correios dos docentes galegos, bem como ao portal educativo da Conselharia de Educaçom, a tradicional felicitaçom da Administraçom aos seus abnegados empregados.
Esta vez, o postal baseia-se num desenho feito por rapazes de umha escola de educaçom especial: umha árvore de natal algo abstracta em cálidos tons dourados, sobre a qual se sobreimpressiona em letras brancas o retrouso d'Os reis do Caurel, panjolinha argalhada polo poeta courelao Uxio Novoneyra, a quem o Apalpador, seica, nom visitava. Versículos que rezam o seguinte:
Brilan altas as estrelas,
Brilan cunha luz moi clara
Máis brila Xesús meniño
Deitadiño nunhas pallas.
Sobre o alto da árvore e coroando estes versos brila, com efeito, umha estrela de cinco pontas saturada de purpurina dourada, a qual, apesar do seu cintilante fulgor, ficaria completamente eclipsada pola cegadora luz dum Jesus menino dormindo numha maseira.

Até aquí, nada especialmente rechamante, excepto o maquiavélico recurso ao acervo poético dum autor homenageado recentemente pola Real Academia Galega com um Dia das Letras Galegas, para meter pola porta de atrás o imaginário cristao que para muitos (e non todos) os celebrantes do solstício invernal é o verdadeiro leit motiv desta festa neolítica, e que, à vista deste postal, a Conselharia de Educaçom, ramo da administraçom territorial dum Estado aconfessional, assume implicitamente como próprio.
Mas seguimos a ler o postal, e achamos, sob a árvore de purpurina dourada, o resto da felicitaçom:
“Os meus mellores desexos dun feliz nadal e dun esperanzador ano 2011.
Jesús Vázquez Abad. Conselleiro de Educación e Ordenación Universitaria”.
Duas vezes o mesmo nome de Xesús, mas este em letras negras, em formato ostensivelmente maior que as do verso courelao. Será que o nosso pensamento sibilino voa longe demais se considerarmos que esta coincidência onomástica é consciente? Nom é isto un sintoma, um indício, dum alto conceito de si próprio, dumha sobreestima desmesurada, da egolatria patológica deste servidor público, que o leva, mediante a identificaçom por homonimia --ou se se prefere paronimia-- com a personagem da panjolinha, a se considerar mais alto e fulgurante que os astros celestes? Ou aínda mais, a se equiparar, mutatis mutandis, ao próprio filho de Deus nado, vaidade das vaidades, suprema arrogância, pecaminosa soberba?
Um dado a levar em conta: é o conselheiro em pessoa quem felicita, em oraçom unimembre ou carente de verbo, evitando desta maneira decidir entre um tratamento formal em terceira pessoa (respeitoso, mas distante) e o tuteio (familiar, mas vulgar). Em qualquer caso, estabelecendo umha comunicaçom pessoal, paternal, com os seus subalternos, dado que o seu nome figura explícito, como sujeito que envia os "seus" melhores desexos: o conselheiro quer ser conhecido, e apresentase-nos com um postal natalício igual que um parente distante do qual aguardamos notícias. Nada a ver com as felicitaçons de outros anos, em que o cartom de Natal nom era assinado por pessoa física nengumha, mas jurídica (a Conselharia), e se evitava qualquer indício de significaçom católica por parte da Administraçom. Sirva de exemplo o derradeiro cartom da Conselharia do bipartido, de saborosas reminiscências pagás, onde nem sequer figura a palavra Natal, e que, lida com saudade, quase parece presságio destes tempos invernais, desta noite de pedra em que vamos vivendo e morrendo.

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