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    Ano Rosso Quintana
    Segunda, 27 de Dezembro de 2010

    Nestes dias de celebraçom solsticial, chegou às caixas de correios dos docentes galegos, bem como ao portal educativo da Conselharia de Educaçom, a tradicional felicitaçom da Administraçom aos seus abnegados empregados.

    Esta vez, o postal baseia-se num desenho feito por rapazes de umha escola de educaçom especial: umha árvore de natal algo abstracta em cálidos tons dourados, sobre a qual se sobreimpressiona em letras brancas o retrouso d'Os reis do Caurel, panjolinha argalhada polo poeta courelao Uxio Novoneyra, a quem o Apalpador, seica, nom visitava. Versículos que rezam o seguinte:

    Brilan altas as estrelas,
    Brilan cunha luz moi clara
    Máis brila Xesús meniño
    Deitadiño nunhas pallas.

    Sobre o alto da árvore e coroando estes versos brila, com efeito, umha estrela de cinco pontas saturada de purpurina dourada, a qual, apesar do seu cintilante fulgor, ficaria completamente eclipsada pola cegadora luz dum Jesus menino dormindo numha maseira.

    Até aquí, nada especialmente rechamante, excepto o maquiavélico recurso ao acervo poético dum autor homenageado recentemente pola Real Academia Galega com um Dia das Letras Galegas, para meter pola porta de atrás o imaginário cristao que para muitos (e non todos) os celebrantes do solstício invernal é o verdadeiro leit motiv desta festa neolítica, e que, à vista deste postal, a Conselharia de Educaçom, ramo da administraçom territorial dum Estado aconfessional, assume implicitamente como próprio.

    Mas seguimos a ler o postal, e achamos, sob a árvore de purpurina dourada, o resto da felicitaçom:

    “Os meus mellores desexos dun feliz nadal e dun esperanzador ano 2011.
    Jesús Vázquez Abad. Conselleiro de Educación e Ordenación Universitaria”.

    Duas vezes o mesmo nome de Xesús, mas este em letras negras, em formato ostensivelmente maior que as do verso courelao. Será que o nosso pensamento sibilino voa longe demais se considerarmos que esta coincidência onomástica é consciente? Nom é isto un sintoma, um indício, dum alto conceito de si próprio, dumha sobreestima desmesurada, da egolatria patológica deste servidor público, que o leva, mediante a identificaçom por homonimia --ou se se prefere paronimia-- com a personagem da panjolinha, a se considerar mais alto e fulgurante que os astros celestes? Ou aínda mais, a se equiparar, mutatis mutandis, ao próprio filho de Deus nado, vaidade das vaidades, suprema arrogância, pecaminosa soberba?

    Um dado a levar em conta: é o conselheiro em pessoa quem felicita, em oraçom unimembre ou carente de verbo, evitando desta maneira decidir entre um tratamento formal em terceira pessoa (respeitoso, mas distante) e o tuteio (familiar, mas vulgar). Em qualquer caso, estabelecendo umha comunicaçom pessoal, paternal, com os seus subalternos, dado que o seu nome figura explícito, como sujeito que envia os "seus" melhores desexos: o conselheiro quer ser conhecido, e apresentase-nos com um postal natalício igual que um parente distante do qual aguardamos notícias. Nada a ver com as felicitaçons de outros anos, em que o cartom de Natal nom era assinado por pessoa física nengumha, mas jurídica (a Conselharia), e se evitava qualquer indício de significaçom católica por parte da Administraçom. Sirva de exemplo o derradeiro cartom da Conselharia do bipartido, de saborosas reminiscências pagás, onde nem sequer figura a palavra Natal, e que, lida com saudade, quase parece presságio destes tempos invernais, desta noite de pedra em que vamos vivendo e morrendo.

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    Escrito às 13:54 nas categorias: Vários, Ano Rosso Quintana