
Há hoje 125 anos morria em Padrom Rosalia de Castro, protagonista das melhores histórias do coraçom que deu a cultura galega. E para comemorar tam assinalada ocasiom, este humilde blogue actualiza a sua estética patenteando que existe umha outra forma de olhar para nós, da mesma maneira que existem formas mais brilhantes de entender a figura de quem ainda hoje passa por ser a primeira Emo da história da Galiza.
Sempre existírom demasiados espaços em branco na biografia conhecida deste símbolo pátrio. E isto tem dado lugar às mais variadas (e desvairadas) interpretaçons a nível psicológico e autobiográfico da sua obra. Ainda por cima, aquilo que se conhece da sua vida parece-se perigosamente com um folhetim romântico, que é, como é sabido, o correspondente simbólico da época com a nossa (é um dizer) imprensa do coraçom.
Filha de umha solteira com um sacerdote, a sua biografia parece começar de propósito como a de umha heroína da literatura romántica. E de facto, a sua relaçom com a mae, o pai, o marido, os filhos e filhas, bem como a morte dalgum destes e a dela própria, parece às vezes ter interessado mais ao galeguismo que lhe seguiu do que a própria obra literária rosaliana. E isto foi criando uma visom de Rosalia como umha vítima, coitada, sofridora e chorona, que simbolizava no seu padecer todo o povo galego.
Mas Rosalia, cimeira das nossas letras, mulher brilhante num mundo e sociedade dominados por homens, foi umha mulher livre numha Galiza e numha Espanha escuras que lutavam ainda por poder chamar-se democráticas. E foi-no, ainda por cima, numha época em que no mundo mal se começava a organizar o primeiro feminismo, em lugares longínquos com sociedades mais igualitárias e justas que aquela que a ela lhe tocou viver.
Foi livre até onde lhe deixárom, é claro, como todo o mundo, que nom foi demasiado. Mas nom podemos negar-lhe o epíteto de livre a quem se apresentou perante aquela sociedade sem esconder-se como mulher nem como galega. Como entender, senom, aqueles brilhantes Cantares Gallegos e a dedicatória desse livro a Fernán Caballero?
Eis umha teoria. E se no fundo toda aquela imagem vitimista nom passasse de umha campanha viral bem sucedida do galeguismo? E se Rosalia nunca foi umha chorona, nem umha santa, nem mártir de nenhum tipo? E se fosse umha imagem cuidadosamente lavrada para melhor chegar a umha sociedade conservadora que desejava histórias românticas?
Entom talvez Rosalia ocupasse o lugar que lhe corresponde entre as precursoras do feminismo hispânico, e resultaria que o galeguismo histórico tinha estrategas frios e calculadores. Entom teríamos outra forma de nos ver como galegos e galegas. Entom o galeguismo sempre teria sido cruel e poderoso.
É umha ideia, é claro, e talvez seja mentira. Mas nós preferimos ver-nos assim. E se nom acreditardes nela, tomai-no a risa, que como dixo Luis Pimentel "ela já chorou por todos". ![]()
NOTA:
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A Academia Galega da Língua Portuguesa editou recentemente, em colaboraçom com Edições da Galiza, umha versão dos Cantares Galegos seguindo a ortografia internacional da nossa língua.
Apesar que ainda nom tivemos oportunidade de deitar mao ao livro, o facto de a ediçom crítica ter corrido a cargo do Professor Higínio Martins merece-nos, em princípio, a maior das confianças.
Por isso, se dalgumha maneira conseguimos acordar em alguém a vontade de se debruçar na obra rosaliana, recomendamos vivamente esta ediçom.
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